domingo, 28 de setembro de 2008

Preâmbulo

Quem viaja pela linha auxiliar da Estrada de Ferro Central do Brasil, entre as estações de Coronel Cardoso e Santa Clara, no ramal valenciano, que serve a importantes fazendas do vale do rio Preto, avista-se, pouco depois do comboio atravessar a ponte de madeira sobre o rio São Fernando, à outra margem do rio Preto divisor, uma pedra de forma retangular, parecendo fechar o caminho calcado pelos rodeiros dos pachorrentos e ancestrais carros de boi.

Próximo a essa pedra, que, vista de perto, é uma espécie de muralha, desce de um vale apertado pelas montanhas do território mineiro, o córrego da Água Fria, plácido na confluência, mas encachoeirado em todo o seu pequeno curso.
Vale do rio Preto. A pedra denominada de a "Testemunha Muda",
está situada na margem esquerda do rio Preto, na margem pertencente ao Estado de Minas Gerais, entre Rio Preto e a fazenda de Santa Clara.









De boca em boca, corre a versão de que aquela pedra é chamada a «Testemunha Muda», porque foram ali assassinados, sem testemunhas, por escravos da majestosa e histórica fazenda de Santa Clara, dois oficiais de justiça. É versão corrente, mas errônea, sem fundamento. O assassinato é lenda, como outras, que são tidas como fatos verdadeiros, desenrolados no período Fortes, em Rio Preto.
Apenas foi espancado naquele local um oficial de justiça por escravos antigo solar da Viscondessa (*título adquirido posteriormente em 17/04/1867, FHOAA2009) do Monte Verde, alguns anos antes do fato, objeto das dissertações que adiante iniciaremos.
Revolvendo-se o pó dos arquivos nos veio a lume a origem desse pitoresco nome cora que foi batizada a pedra colocada ali, naquele local, pela natureza tão caprichosa na feição de sua moldura de variados aspectos e matizes.
Os argumentos com que nos estribamos, provêm de fontes que nos merecem fé, para destruirmos, com precisão matemática, as lendas que têm curso nos serões de família dos nossos rincões, a respeito da fazenda de Santa Clara, dos seus primeiros habitantes e de suas coisas. Lendas que muitas vezes tiram as colorações do nosso patrimônio cívico, que muitas vezes vêm pôr em cheque qualidades e virtudes de nossos antecedentes, que se estabeleceram no vale do rio Preto, pelos torcicolos do rio divisor.
No decurso da leitura da obra a que vamos dar começo, teremos os necessários conhecimentos, descendo ás minúcias em torno de um acontecimento que teve por teatro naquele local, em que foi envolvida (isso a 9 de novembro de 1859) a figura máscula, admirada e respeitada pela maioria de seus cidadãos que foi Carlos Theodoro de Sousa Fortes, comendador da Ordem da Rosa e Barão de Santa Clara quem muito deve a cidade do Rio Preto.
Ali, à confluência do ribeirão da Água Fria com o rio Preto, deu-se o epílogo de uma luta angustiosa, travada de muitos anos, entre os Fortes Fortes, dos quais era membro o Barão de Santa Clara, e os Fortes Fracos, cujo chefe era o furriel do Corpo Policial da Província de Minas Gerais - José Floriano dos Santos Fortes.
Esse último, afastado pelos caprichos da sorte, do seio de sua família, constituiu numerosa prole na tradicional Campanha, a cidade que, noutras eras, fora cognominada a Atenas Mineira, e onde os seus três filhos varões, de origem modesta, conseguiram, graças aos próprios esforços, preju­dicados morais e inteligência, um cabedal de cultura, que os notabilizou.
Mas os seus anseios, as suas ilusões e seus vôos foram amortecidos pela chama falaz do ouro e tiveram por holocausto os acontecimentos, que só à «testemunha muda», a pedra hirta, fincada à beira do rio Preto, poderia contar.




Entusiasma ao autor deste trabalho um único objetivo: mostrar aos seus contemporâneos e aos vindouros um pouco da história da fundação de Rio Preto, escoimada de ficção e destruir muitas lendas que se criaram e correm a respeito dos Fortes e que são tomadas por verdades puras e sãs.
É uma tarefa ingrata focalizar ou traçar perfiz morais dos grandes que, noutros tempos, como potentados, senhores de extensas sesmarias, conduzindo riquezas arrancadas das grupíaras, mentores das massas, dominaram a terra e o homem, ás vezes com despotismo ou com brandura, às vezes com orgulho ou com desprendimento:
Ficará em evidência a figura de Carlos Theodoro de Sousa Fortes, o barão de Santa Clara, nome que batiza a principal praça da cidade do Rio Preto, edificada á beira do rio, que lhe dá o nome, pela sua família, cujo retrato, mostrando o seu busto varonil e cans respeitosas, acha-se num dos corredores da Matriz da cidade, colocado ali pelos seus admiradores, em homenagem ao construtor do templo, que é um monumento e orgulho da cidade ribeirinha. Se, nas páginas que se seguirem, for a figura que tentamos pintar, deslustrada pouco nos importará porque raro é o brilhante que embora caprichosamente lapidado, não nos apresente com uma de suas facetas defeituosa.
Decorre o último quartel do século XVIII.
Muitas fazendas havia pelos arredores de S. João Del Rei, a já importante vila da Província das Minas, uma das primeiras fundadas, Irmã de Campanha da Princesa da Beira foi criada em 8 de julho de 1713.
Notabilizou-se a atual cidade das igrejas, naquele tempo, pela existência de grande número de garimpos, para onde se convergiram massas de população de além-mar e de muitas outras partes do Brasil Colônia, na ânsia sempiterna de se tornarem ricas.
Numa dessas fazendas, residia dona Rita Vitória de Bustamante e Sá, matrona de raras virtudes, com muitos filhos; e todos empregavam as suas atividades: uns, no cultivo da terra; outros, na extração do ouro, pelas grupíaras.
O garimpo era a maior preocupação dos habitantes de São João. Ele fascinava.
Famílias inteiras, com bateias de todas as espécies, procuravam arrancar do seio virgem da terra, que tudo prometia o metal reluzente, embriagando os olhos, enchendo de contentamento coração e, conseqüentemente, viam realizados os seus propósitos:
Também havia, em S. João Del Rei, pessoas que se dedicavam à lavoura, porque só do ouro não podia viver o homem. Precisava cavar a terra, prepará-la e lançar a semente, transportando a produção desse trabalho aos celeiros, e estabelecendo assim o modo de vida.
Francisco Dionísio Forte era um dos filhos de dona Rita Victória de Bustamantee Sá ,(* nascido na noite de 09/10 de Outubro de 1766,São João del Rei, pesquisa de Joyce B Messias, em 2009), e, moço ainda, enamorou-se de uma das mais lindas moças da propriedade(região), Joaquina Felisberta da Silveira. E, levou-a para a sede da fazenda, unindo-se com ela ilegalmente passando ambos a viver sob o teto da casa, sede da fazenda, tendo desse conúbio, um filho, que recebeu o nome de José Floriano.
Querendo Francisco encobrir o seu pecado á sua veneranda mãe, aconselhou a Joaquina que entregasse o recém-nascido a qualquer pessoa, dando-o a criar a uma mulher da vila, de condições humildes, de nome Ana Antonia, conhecida por “Trepa Moleque”.
Ana Antonia teve um dissabor. Não tinha leite, nem dispunha de meios para alimentar a criança. E, resolveu, por sua vez, enjeitar o mal-logrado bebe.
Juca Leão, um pobre homem, que, em São João Del Rei, vivia de biscates, numa manhã cheia de sol, ao abrir a porta de sua casa, para sorver o ar matinal, puro e saudável, encontra, sobre a pedra que servia de escada para dar acesso à porta da humilde sala de visita, um embrulho entranho de roupas.
Ouviu um vagido, e, surpreso, levantando o embrulho de roupas, vê a forma simpática de um rostinho vermelho de criança.
Com o coração em alvoroço, leva a preciosa carga para dentro e enche a casa de alegria. Tinha muitos filhos, mas aquele não seria demais.
A sua curiosidade de descobrir os pais da criança, como era natural, se desenvolveu em pesquisas e interrogatórios, pela vila, descobrindo, com a confissão espontânea de "Trepa Moleque", a paternidade do enjeitadinho.
E José Floriano cresceu debaixo dos carinhos de Juca Leão, enquanto, na opulenta residência de dona Rita Victória Bustamante e Sá vivia, já debaixo de agrados e carinhos de sua proprietária, o casal Francisco Dionísio Fortes e Joaquina Felisberta da Silveira.
Outros irmãos de José Floriano estavam ali sendo criados com o conforto que este, na casa de Juca Leão, não usufruía.
O destino caprichoso os separou.
As bandeiras, que penetraram pelo território mineiro, fizeram fundar, em diversos pontos, núcleos de população.
Diversos caminhos partiam da Corte, em demanda dos centros povoados, que se formava m em torno dos terrenos, onde se empregavam a atividades na extração do ouro.
Vila do Carmo (Mariana), Vila Rica (Ouro Preto) e Vila do Sabará as três primeiras cidades criadas em Minas, estabeleceram comunicação com a Metrópole, principalmente pelo Caminho Novo.
Depois da criação de outras vilas, entre elas a de São João Del Rei, ainda o sertão do Rio Preto se achava entregue aos seus nativos - os índios Coroados, porque a visão acanhada do Governo da Metrópole não consentia o desbravamento de terras.
Em 1730 o Governador das Minas, Pedro Maria Xavier de Athayde Mello, estabeleceu definitivamente o Registro Rio Preto, abrindo o sertão à mineração. O capitão Francisco Dionísio Fortes desejoso de adquirir fortuna viu no Sertão do Rio Preto, aberto á exploração, não só terras fertilíssimas, como também um solo que guardava tesouros enormes. Ouro em quantidade.
Se as suas bateias, habituadas em arrancar o ouro em S. João Del Rei, entrassem em ação pelas margens do rio Preto e seus afluentes, como Bananal, Pirapetinga, Santa Clara e São Fernando, como são tratados atualmente, as suas arcas se encheriam.
E, conduzindo grande número de escravos da fazenda de sua mãe, veio faiscar no vale do rio Preto, onde se estabeleceu, adquirindo nele diversas sesmarias, pelas margens do rio até as vertentes da Mantiqueira.
Volta a São João Del Rei. E, de lá, traz a sua família - Joaquina Felisberta e filhos. Passaram a residir numa casa construída por Francisco Dionísio Fortes, que, mais tarde, foi aumentando-a progressivamente, até formar a bela casa, sede da fazenda hoje de Santa Clara.




Foi Francisco Dionísio Fortes, por longos anos,2º guarda-mor do Registro do Rio Preto, (* documento do Arquivo Público Mineiro, consta a data do pedido de guarda-moria do ano de 10-02- 1800, FHOAA 2009).
Habitava a terra em povoamento os índios Coroados, que se compunham de duas ordens - os "Tempruns" e os "Sensaricãos".
O nome Coroado foi dado pelos portugueses, por que esses índios usavam o cabelo caído sobre os ombros e um raspado no alto da cabeça, parecendo que era tonsurado, à maneira dos padres. Assim faziam também
Residiam pelos arredores de Rancho das Cobras (Valença) e Ubá e espalhados por todo o terreno existente entre os rios Paraíba e Preto,
M. José Rodrigues foi o primeiro que se ocupou da civilização dos Coroados do Rio Bonito, como eram conhecidos.
Depois da morte de M.José Rodrigues, que foi um benfeitor, o Governo confiou a civilização dos Coroados a um diretor, que recebia cem mil réis anuais. E na época da passagem do sábio naturalista francês, Augusto de Saint Hilaire, pelo Registro do Rio Preto (1819), o governo não mais cuidava dos Coroados, achando-se eles entregues a si mesmos.
Em 1830, achavam-se errantes, num número de 500 a 600, até que uma epidemia de varíola grassou entre eles, dizimando-os.
A sua habitação não era durável. Viviam maior parte do tempo fora de casa, entregues ao trabalho, pelas propriedades.
Atiravam, com habilidade, com o arco e a fecha.

Extraiam de uma planta, espécie de embaúla certos ramos e, dali fabricavam um tecido grossíssimo, mas forte, fazendo roupas, toda bordada, que desciam até o joelho.


A sua choça não era outra coisa senão uma espécie de berço, mal construída, com quatro pés e coberta com folhas de palmeira.
Poucos eram os que permaneciam nus ainda.
Outros se vestiam como os exploradores do terreno, os portugueses, que lhes forneciam ves­tuário em troca do trabalho.
Alguns recebiam o batismo e outros eram absolutamente estranhos à religião cristã.
Reconheciam um chefe superior, mas eram autoritários com os homens que viviam dispersos pelas matas, respeitando, porém, os limites de suas propriedades.
Mudavam de mulher, quando bem lhes parecia e, quando queriam, usavam a poligamia, o que era de costume no meio deles.
A mulher Coroada era de seu marido e de sua propriedade. Era ela quem carregava a pequena bagagem, sendo isto muito comum na população selvagem.
Falavam alto, dirigindo-se a seus companheiros com gestos grosseiros. Eram indiferentes, tristes e apáticos.
Eis algumas palavras com que eles se comunicavam:
Deus - Tupan; água - nhaman; fogo-matê; sol-copê; cabeça-ke;. lua-pergran; homem-quiaman; mulher – biaman; criança-espona;pai- selena; mãe- iona ; filho,simeina-, mão-juparê; braço – nhê; dedo - tipiê; pé - juparenã; olhos- miran; nariz - nhê; língua - tão;árvore - bó; pássaro - provôno.
Existem, no dialeto Coroado, termos comshy;postos, como juparê - mão e japarenã - pé. Notam-se desinências iguais, como man de biaman e quiaman.
O capitão Francisco Dionísio Fortes, depois de se estabelecer no Sertão do Rio Preto, sen­tiu falta de um seu rebento —José Floriano — que havia ficado em S. João Del Rei, aos cuidados de Juca Leão.
O garoto já estava bem crescido e merecia, como os outros seus filhos, carinho e amparo.
E resolveu buscá-lo.
Chegando a São João Del Rei, expôs a Juca Leão as suas intenções quanto ao menino.
Juca Leão se revoltou, protestando que, de forma alguma, entregaria a criança, pois lhe devotava um entranhado afeto e um grande amor.
Francisco Dionísio Fortes constitui advogado, a fim de reaver seu filho, e nada consegue, pois Juca Leão, com argumentos mais fortes, convenceu a justiça de que o menino José Floriano lhe pertencia.
Numa tarde, quando o capitão Francisco Dionísio Fortes passava pela frente da casa onde morava Juca Leão, avistou seu filho brincando na rua. Uma idéia de rapto assaltou seu cérebro de pai, que desejava reunir aos seus outros filhos aquele que ali estava e que fora transviado pela sorte.
Dirigindo-se ao garoto, perguntou-lhe:
-Menino, quem é o teu pai?
Espantado com a presença daquela pessoa estranha que lhe fazia perguntas, respondeu:
-Meu pai é o Juca Leão.
-Não! Teu pai sou eu. O Juca Leão foi quem te criou. Queres ir para a minha fazenda no Rio Preto?
-Não vou, não, porque acho aqui melhor.
-Vamos. Eu te dou roupinha nova, dinheiro e muito brinquedo. E passearás bastante.
-Não! Não quero ir.
Dizendo isto, o menino procurou fugir, mas o capitão Francisco Dionísio não se conteve e o segura pelo braço.
Consegue escapar de suas mãos e corre, a passar por baixo de um portão ao lado da casa em que residia a fim de se livrar de seu perseguidor, o seu próprio pai, ainda com as pernas de fora, o capitão agarra-as. Mas o menino atraca-se em qualquer coisa do lado do quintal, que seu pai teve de usar violência para arrancá-lo de onde se metera, resultando, dali, sair José Floriano bastante ferido.
Com os seus gritos de aflição, chegou ao local muitas pessoas, indo a seu socorro.
Aparece Juca Leão. Estabelece entre os dois homens, que se julgaram pais do menino, uma acalorada discussão. Com a intervenção das pessoas presentes, evitaram-se cenas desagradáveis.
Sai o capitão Francisco Dionísio Fortes, todo indignado, prometendo vingar-se.
Profundamente abalado pelos insucessos que tivera em suas pretensões, volta a Rio Preto.
E, entregando-se, de corpo e alma, ao trabalho de faiscação e lavoura no Sertão do Rio Preto, e cuidando da educação de seus demais filhos, esqueceu-se de seu primogênito em São João Del Rei.
Morre Francisco Dionísio Fortes, visconde de Monte Verde( * não foi encontrado esse Título, na relação da nobreza brasileira, FHOAA 2009), depois de uma existência dedicada ao trabalho no Sertão do Rio Preto, desaparece entre o número dos vivos.
Foi um lutador. Conseguiu fortuna colossal. E, querendo corresponder à terra que, com seu produto, encheu as suas arcas, procurou melhorá-la, participando com aqueles que residiam na antiga passagem do Rio Preto, a fim de que a localidade pudesse ser admirada por todos aqueles que transitavam pelo caminho aberto em 1780, pelo Visconde de Athayde.
Servia- como é ainda hoje dos Estados- de fronteira das Províncias de Minas e Rio de Janeiro.
À extremidade da ponte, fica a povoação nascente, encostada á montanha. É composta a única rua, muito larga e paralela ao rio. Dependia á Ibitipoca. A pequena igreja, numa encosta, a cavaleiro de uma praça em formação, é servida por um capelão.
As casas de Rio Preto, excetuando uma ou duas, são térreas. Pequenas, mas todas possuem um jardinzinho plantado de bananeiras, cuja pitoresca folhagem contribui para o embelezamento da paisagem, Logo depois da ponte, isso para quem vem caminho da Corte, fica, à direita, o rancho dos viajantes, em que funciona o Registro, onde se pesam as mercadorias que entram na província de Minas.
E ali também que se examinam as malas dos viajantes, a ver se não levam cartas, o que podia lesar o correio na sua receita.
Qualquer pessoa que pretendesse transitar pelo Registro do Rio Preto tinha que apresentar os seus papéis ao comandante do destacamento.
Havia, sempre, no rancho, soldados que acompanhavam o viajante á casa do comandante.
O Rio Preto já não é mais o sertão do índio, tal qual como Francisco Dionísio Fortes veio encontrá-lo em 1780 (* 1800). Dos índios, nem mesmo vestígios se encontraram. Está tudo transformado.
Elevada à Paróquia, graças aos bons serviços de um dos filhos do fundador de Rio Preto, o doutor Antônio Joaquim Fortes de Bustamante, que foi Ouvidor e Provedor Geral da Comarca de S. João Del Rei, a que pertencia o Arraial de Nosso Senhor dos Passos do Rio Preto. Doutor Antônio Joaquim, em 14 de julho de 1832, assinava uma Resolução, criando a Paróquia do Rio Preto, desmembrando-a de Ibitipoca. Naquele tempo, os negócios da igreja se confundiam com os administrativos.
Em 15 de abril de 1844, pela Lei Provincial _n° 271, viu o Visconde( ?) de Monte Verde realizada uma de suas maiores aspirações - a elevação de Rio Preto a Vila, fincando-se, no flanco de um dos morros da cidade (hoje Ladeira Dr. Henrique Portugal), o pelourinho, que simboliza a criação da Vila.
E cerrou os seus olhos, depois de uma velhice sossegada, vendo os seus filhos possuindo educação esmerada e prestando serviços á terra em que habitavam.
Com a morte de Francisco Dionísio Fortes, Visconde do Monte Verde, foram os seus bens entregues aos seus filhos, que conduzem títulos de nobreza.
O barão(*) do Monte Verde, comendador Francisco Thereziano Fortes, recebeu, de seu pai, a fazenda de Santa Clara, a mais importante
O doutor Antônio Joaquim Fortes de Bustamante, ex-ouvidor e provedor geral da Comarca de São João Del Rei, desembargador do Tribunal do Distrito (hoje Supremo Tribunal Federal), fidalgo cavalheiro da Casa Imperial, comendador da Ordem de Cristo, teve, como legado, a fazenda de São Paulo, na então província do Rio de Janeiro. Foi dos filhos do Visconde(*) do Monte Verde, quem mais se notabilizou. Formou-se, em direito, pela Universidade de Coimbra, em Portugal.
Como Ouvidor da Comarca de São João Del Rei, assinou resoluções criando os distritos de Rio Preto, Santa Rita do Jacutinga e Santa Bárbara do Monte Verde.
Dona Eleutéria Claudina de Souza Fortes teve como herança, a fazenda de Santa Teresa, também na então província do Rio de Janeiro.
A baronesa(*) de Santa Clara, casada com o titular que lhe deu o nome, seu primo Carlos Theodoro de Souza Fortes, comendador da Ordem da Rosa, foi residir na fazenda de São Fernando, na mesma província, fazenda que lhe foi legada pelo Visconde(*).
Todas essas propriedades são importantes, constituindo um núcleo de trabalho organizado, servindo do rio Preto para o seu intercâmbio, por meio de navegação a barcos. O rio Preto é navegável desde a cachoeira, abaixo da foz do rio Pirapetinga, até légua e pouco abaixo da então Passagem do Rio Preto. Teve, na época que descrevemos um movimento intensíssimo.
Diariamente desciam ò rio numerosos barcos, quase que soçobrando ao peso de pilhas de sacos de cereais, produzidos nas terras férteis da zona. Elas, não só dão o ouro, como também a prodigalidade de suas sementeiras.
A bordo dessas embarcações, escravos habituados nesse serviço e só a eles destinados quebravam, com os seus cantares, a monotonia do ambiente. E que cantares! Revelava neles a nostalgia dos rincões africanos.










Campanha é uma cidade que, nos outros tempos, ostentava grande pompa. Contemplando o conjunto de suas casas, isto se percebe. As habitações se destacam com largas fachadas; na parte central, elas formam um quadrilátero. E, num dos seus ângulos, se ergue a Matriz, um edifício sólido que muito agrada á vista, devido á perfeição de suas linhas.
As lages do calçamento são polidas e gastas. Os portões laterais das casas — e isso é muito comum abrem -se para amplos celeiros, atestando os esplendores da civilização que ali floresceu.
Da praça central, irradiam ruas, descendo ou subindo, obedecendo à conformação topográfica. E essas ruas perdem o seu alinhamento, nos extremos, em que a casaria, menos compacta, espalha-se, com largos espaços ocupa dos por cerca de vários aspectos. A maioria das casas se ergue em paredes de adobes, nuas.
A paisagem é apática, ao longe, batida de sol.
De um dos extremos do casario, um chapadão a se perder de vista, numa planura de mesa com vegetação escassa e rasteira. De outro, os garimpos abandonados, abertos em boqueirões, carcomidos nas bordas, pelas enxurradas. Assemelham-se com crateras de vulcões extintos.
Ali se acham ainda aqueles fossos colossais, mostrando a causa do declínio de Campanha que foi o maior empório comercial ao sul da antiga Província. Logo que foram extintos os veios auríferos, extinguiu-se também o trabalho, resultando, como era natural, o êxodo da população. Era o garimpo a razão da existência da grande aglomeração humana que emprestava á cidade muitos títulos.
Aquelas lavras hoje esvaziadas evocam a Campanha doutos tempos.
A beira desses fossos vê-se o rastro do carro que sulca o terreno, deixando nele um risco avermelhado. E este se estende pelas campinas desertas, perdendo-se de vista.
Primou - e ainda hoje traz orgulho ao campanhense- não só por terem existido ali as grandes faiscações, como também um meio intelectual de renome que perdura até nossos dias.
Numa das ruas estreitas da cidade, cognominada a Atenas Mineira, uma casa José Floriano dos Santos Fortes, furriel do corpo Policial da Província, abrigava a sua família. Casara-se com Rita de Cássia, de cujo matrimônio houve nove filhos, dentre eles três varões: José Bento, Antônio de Pádua e Bernardo do. Os demais filhos eram moças solteiras, conhecidos por Fortes Fracos, pois havia os Fortes Fortes, do mesmo ramo, que no Rio Preto.
Viviam modestamente. Assim exigiam as condições uma família, cujo chefe é um soldado da polícia; enquanto os seus parentes consangüíneos gozavam de vida faustosa, desfrutando títulos de nobreza.
José Bento de Sá Fortes, o filho mais velho, tinha nessa ocasião, vinte e cinco anos. Era de altura regular, rosto comprido, cabelos louros, olhos azuis e nariz aquilino, boca regular, com barba muito cerrada. Viviam de seus parcos lucros adquiridos numa casa de negócio mal sortido, numa das ruas da tradicional Vila da Campanha da Princesa da Beira.
Manteve, em Campanha, por muito tempo um colégio particular, de primeiras letras, que contava grande freqüência. E, atraído pelo comercio, começou a dedicar-se a esse ramo de vida.
O segundo dos Antonio de Pádua Fortes, e o terceiro, Bernardo da Sá Fortes, pareciam muito com o primeiro. E muita gente tinha-nos como gêmeos.
Bernardo era portador de esplendida cultura, adquirida com o convívio que tivera com os mestres. Lecionava gramática latina, com grande proveito. Em Campanha era contrariado pelas pessoas de destaque para o preparo de seus filhos. Nas horas vagas, auxiliava seu irmão na casa comercial.
O chefe da casa, José Floriano, vivia entregue as suas obrigações, sempre atento às ordens de seus superiores.
Sabendo da morte de Francisco Dionísio Fortes, seu pai, chegou ao Rio Preto, a fim de se habilitar para receber a herança.
Todos os filhos do visconde do Monte Verde tiveram, pelos meios judiciais, os seus legados, menos José Floriano que, na época do falecimento de seu pai, tão legítimo como os seus demais irmãos, fomos encontrá-lo em Campanha na forma que descrevemos. Que contraste! A sorte como é caprichosa! Ele, simples soldado de polícia. E seus irmãos portadores de títulos de nobreza e ricos.
Chegando a Rio Preto teve uma decepção: para ele nada tocara. Não era filho de Francisco Dionísio Fortes.
José Floriano fez ao Rio Preto diversas viagens, para reaver de seus irmãos o que lhe pertencia, procurando, por todos os meios, convencer a seus parentes do direito que, desde o seu nascimento, tinha á herança.
Foi a Alfenas e lá pediu cartas de recomendação a seu primo, que era vigário daquela freguesia.
Nessa época, o homem valia pelos títulos que carregava. Assim, esse seu primo era homem de valor, pois, em todos os seus papéis, chamava-se de «Padre José Carlos Martins, Cavalheiro da Ordem de Cristo, Cônego Honorário da Sé Catedral de São Paulo, Pároco Confirmado na Igreja Paroquial de São José e Dores de Alfenas, Vigário da Vara, Juiz de Dispensas Matrimoniais e Delegado Extraordinário de S. Ex. Redima. o Arcebispo, nas Comarcas de Alfenas e Caldas.
Este escreveu á sua tia, a mãe de José Floriano, dona Joaquina Felisberta da Silveira, viscondessa do Monte Verde, e para os seus primos, irmãos de José Floriano, doutor Antônio Joaquim Fortes Bustamante e comendador Francisco Thereziano Fortes, na esperança de que tais pedidos pudessem influir nos ânimos da progenitora e irmãos de José Floriano e se lhe davam alguma quantia, mesmo a testemunho de esmola.
Essas recomendações foram concebidas nos melhores termos e foram entregues por pessoas capazes e em mão própria. E, por infelicidade do chefe dos Fortes Fracos, produziram desagradáveis impressões, não obtendo resultado algum.
O inditoso furriel pede a seu primo, o padre José Carlos Martins, um abono ou fiança, para tirar algum dinheiro emprestado, declarando que havia uma pessoa que lhe dava vinte contos pela herança de sua mãe mediante procuração. Não aceitava essa oferta, que era muito baixa, para que seus filhos, a qualquer tempo, não se queixassem. A acusação de que ele pusera fora a herança de seus avós, constituída de grande e avultado patrimônio, seria, para o seu coração de pai, um sofrimento perene.
No decorrer do ano de 1858, foram a Alfenas pregar missões os frades Eugênio Maria de Gênova e Francisco Carreglinoni.
José Floriano, todo contente chegou à casa de seu primo, o vigário da freguesia, onde se a achavam hospedados esses missionários, dizendo, em conversa iniciada a respeito de tão palpitante assunto, que, por suas praticas e exortações, tinha conseguido de sua mãe, dona Joaquina Felisberta da Silveira (ela era viva ainda) a reconhecê-lo como seu filho, fazendo-o participante, como os seus demais filhos, da herança de seu pai.
De fato, tal negociação estivera em bom andamento antes do falecimento do visconde do Monte Verde. Já estava resolvida a entrega de sua herança e José Floriano teve a imprudência de contrariar seu irmão, doutor Antônio Joaquim Fortes Bustamante, e se perdeu, tornando-se, por isso, antipatizado, por todos os seus parentes de Rio Preto.
Tentou, então, pelos meios judiciais, remediar o caso.
E mediante ação, intimar o barão do Monte Verde das suas intenções.
Os meirinhos encarregados da diligencia, ao se aproximarem da fazenda de Santa Clara, na confluência do ribeirão da Água Fria com o rio Preto, conduzindo o instrumento citatório, foram recebidos pelo escravo Porfírio e mais outros quatro companheiros, deixando os oficiais de justiça em "lençóis de vinho", expressão esta muito usual na fazenda, que correspondia a "ensangüentado".
Foi José Floriano ao solar de Santa Clara, entender-se pessoalmente com o seu irmão Francisco Thereziano Fortes. Ao chegar à escada do "Padre Nosso” que dá acesso à parte inferior do prédio parte esta toda construída de lages de grandes dimensões, o escravo Porfírio insiste para que se retire da fazenda.
E o pobre furriel do Corpo Policial, ousadamente, galga os degraus dessa escada granítica, e, quando pisa o pátio superior, recebe das mãos de Thereziano, uma bengalada.
Porfírio, com um cacete, deixa José Floriano em “lençóis de vinho”, na mesma forma por que procedeu com os oficiais de justiça na Água Fria.
Esse escravo, que era tido como o mais valente da fazenda, ocupava o lugar tenente de Thereziano. Por ele foi o desditoso pupilo de Juca Leão metido no cárcere da fazenda, auxiliado do por outros serviçais.
À porta do cárcere, pretos escravos destinados ao policiamento da fazenda, rendiam guarda permanentemente. E pelos dias que se seguiram, vinha á cadeia, destinada á alimentação do preso - uma bandeja com iguarias, que sempre eram recusadas por José Floriano.
Para quem devia apelar Floriano?
A justiça nesse tempo era feita pelos próprios potentados. Resolveu entregar-se á sua sorte, tão adversa desde o seu nascimento.
E ali ficou entregue a um definhamento mortal.
Decorreram oito dias. No fundo da masmorra de Santa Clara, escura e mal cheirosa, entre os instrumentos de supondo, não jazia um homem, e sim um verdadeiro cadáver, tal o estado do filho bastardo do visconde do Monte Verde.
Sem alimentação, com ferimentos ainda gotejantes de sangue, o infeliz José Floriano ali jazia.
Não balbuciara sequer uma palavra de pro­testo. Sofrera cristãmente.
No fim desses oito dias foi trazido para fora. Apresentaram-lhe diversas pessoas. Eram as autoridades da Vila do Rio Preto que ali se achavam.
Deram-lhe um papel para que o assinasse.
Alguns rabiscos apareceram no lugar indicado, feitos pelas mãos cadavéricas do infeliz.
Viam-se naqueles dois documentos as assinaturas quase ilegíveis, mas era o nome de José Floriano dos Santos Fortes.
Aqueles homens estavam satisfeitos.
José Floriano tinha assinado termos de desistência da herança e de bom viver.
Velho, alquebrado, não sobreviveu aos maltrato recebidos pela gente da fazenda de Santa Clara.
A caminho de Campanha, de retorno ao seu lar, falece, como se fosse um mendigo, sem nenhum amparo.
Uma sepultura rasa, à beira da estrada, marcou o epílogo doloroso da existência de um homem que foi infeliz desde o seu nascimento.

Entre montanhas ramificantes da Mantiqueira, no apertado da confluência dos rios Bananal e Jacutinga, ergue o casario – umas quarenta casa de vários aspectos-duma povoação nascente que seus fundadores batizaram com o nome de Santa Rita do Jacutinga.
O arraial foi fundado pelos Gomes e Caetano, famílias oriundas de Santa Rita do Ibitipoca.
As suas casas se espalham numa encosta que parece esforçar-se por derramá-las aos rios que ali se juntam, pouco acima da cachoeira grande.
Tem, numa baixada da encosta, uma praça muito espaçosa, ornamentada por assobradadas, construídas pelos agricultores ricos das imediações, que muito se interessavam pela bela aparência do arraial incipiente.
Num dos ângulos dessa praça ergue-se a capela e noutro o cemitério. Dessa praça saem diversas ruas, procurando a parte baixa do arraial.
Pertencia, desde 1851, á paróquia de Nosso Senhor dos Passos do Rio Preto, e o seu povo pleiteava a elevação da capela à paróquia, o que conseguiu mais tarde, em 2 de junho de 1859, em virtude da lei provincial n. 976.
Como capela, antes de 1851, tinha pertencido às freguesias de Vila Bela do Turvo, de Nosso Senhor dos Passos do Rio Preto, de Aiuruoca e de São José do Rio Preto.
Muito ficou devendo o adiantamento da localidade aos Gomes e Caetano e, mais tarde, aos Ferreira da Cunha e Aredes, que muito se esforçaram para que no Sertão do Rio Preto brotasse uma povoação, onde o trabalho se manifestasse em todas as suas atividades.
A capela foi reconhecida em 4 de agosto de 1832, e os seus habitantes, na época que descrevemos (1858), estão contentes, porque acabam de erguer a nova igreja que seria a Matriz, aproveitando a parte da capela construída em 1832.
Na localidade há grande trânsito para as minas da zona do Rio das Mortes. É o caminho mais curto que liga a Metrópole às minas. Atravessando a divisa das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, na barranca do rio Preto, lugar conhecido pelo nome de Porto Zacarias, sobe-se a Mantiqueira, numa estrada esplendida, construída pelos Fortes.
Algumas casas comerciais existem na povoação. Entre elas, está a de José Bento de Sá Fortes, filho de José Floriano, cuja morte fez com que seus filhos varões tomassem para si o encargo da família, zelando por sua mãe e irmãs, estas em número de seis.
Desgostoso com a morte do pai resolveu José Bento abandonar Campanha, não se conformando, como os seus demais irmãos, com a penúria em que jaziam. Uma força misteriosa trouxe o rapaz para perto de Rio Preto, vindo estabelecer em Santa Rifa do Jacutinga, trazendo para esta povoação suas irmãs que passaram a residir num sitio de José Vilela dos Santos Meireles nas proximidades do arraial.
José Vilela se oferecera como patrono dos filhos do chefe dos Fortes Fracos, espoliado de sua herança, não pelos ditames da justiça, e sim pela vontade dos homens que se prevaleceram dos caprichos da sorte.
A idéia de vingança passou pelas cabeças de seus filhos, mas, possuidores de corações bem formados, não a executaram.
E se conformaram com a sorte adversa de sua mãe e irmãs, expostas a tantos revezes, enquanto outros usufruíam de parte da fortuna que lhes pertencia.

Criados numa escola em que a virtude era jóia de fino lavor, procuravam esquecer-se de tudo.

A fazenda de São Fernando, na então província do Rio de janeiro, fronteiriça ao território mineiro, tem por sede um edifício amplo e arejado que se debruça sobre a confluência do rio que lhe dá o nome com o rio Preto.
Residia ali um dos legatários de Francisco Dionísio Fortes, o fundador do Rio Preto.
É ele Carlos Theodoro de Souza Fortes, genro do visconde(*) do Monte Verde.
É comendador da ordem imperial da Rosa criada no Brasil, por dom Pedro I, a 17 de outubro de 1826, para perpetuar a memória do faustíssimo consórcio do primeiro imperador do Brasil com a princesa dona Amélia de Leuchtenberg. Esta ordem se compunha de seis categorias: grã-cruz, grande-dignatário, dignitário, comendador, oficial e cavaleiro.
Foi Carlos Theodoro de Souza Fortes um dos contemplados com o título de comendador. E mais tarde, muito depois dos acontecimentos que focalizamos, recebeu o fidalgal titulo de barão de Santa Clara(1887).
Tinha cinqüenta e quatro anos de idade (em1859) e era natural de São João Del Rei; desposou sua prima, filha do visconde(*) Monte Verde.
Espírito de elite, cortes e de acurada bonomia, o comendador Carlos Theodoro fazia constantemente cercar-se de estima e consideração na vila do Rio Preto, onde se notava o desdobramento de suas atividades ou em outra qualquer porte, onde elas se fizessem sentir.
Caridoso e accessível atendia a todos os pedidos. Foi um dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia do Rio Preto e foi quem terminou a construção da suntuosa Matriz da cidade.
José Bento de Sá Fortes procurou se avistar com Carlos Theodoro, seu tio afim, fazendo-o sentir do estado de penúria em que viviam os filhos de José Floriano, seu primo e cunhado.
Foi a Mariana e de lá trouxe uma carta do Arcebispo, dom Benevides, dirigida aos Fortes, pedindo á opulenta família socorrer aos rapazes.
Bateu de casa em casa dos Fortes que se espalhavam pelo vale do rio Preto e nada conseguiu. Com exceção de Carlos Theodoro, que se sentiu muito compadecido com os rapazes e suas irmãs, manifestando com o mais natural dos sentimentos que lhes queria e estimava como bons parentes consangüíneos.
Portador de coração bondoso, amigo de todos, comprazia-se em fazer o bem, auxiliando aqueles que o cercavam e procuravam.
Mas havia um tropeço: a baronesa(?) sua esposa, atendendo ás opiniões que seus irmãos articulavam a respeito dos filhos de José Floriano, não consentia que despendesse um real sequer em benefício dos mesmos.
A baronesa(*) era sempre prestigiada em qualquer de suas argumentações a respeito desses seus sobrinhos, a quem odiava, pelos seus dois irmãos, doutor Antônio Joaquim Fortes Bustamante e comendador Francisco Thereziano Fortes.
E o comendador Carlos Theodoro, diante das considerações apaixonadas expendidas pelos seus parentes, curvou-se a essas vontades, deixando até, uma vez, de receber José Bento em São Fernando.
José Meireles se interessa muito pela causa. E de longa data, pois em 1855, morando em um sitio arrendado a ele pelo senhor de São Fernando, ali apareceram duas filhas de José Floriano, de nome Luiza e Rita, em companhia de Bernardo, conduzindo cartas de recomendações de diversas pessoas de destaque da cidade de Campanha, inclusive, uma do cônego Antônio Felipe de Araújo, que pedia a Meireles tirar uma subscrição para a mãe de essas moças resgatar uma única escrava que possuía e que se achava hipotecada.
A carta do cônego Araújo afirmava que aquelas pessoas, membros dos Fortes Fracos tinham direito á parte da fortuna dos Fortes Fortes.
E, embora tudo isso, pedia a Meirelles que, mesmo a titulo de esmola, procurasse experimentar se obtinha alguma quantia a favor daquelas moças.
E resolveu sair de Santa Rita do Jacutinga com a intenção de procurar o comendador Carlos Teodoro em sua fazenda.
Chegando a São Fernando, fez sentir ao excelente homem, mostrando-lhe as ditas cartas e pediu-lhe que, atendendo ao que estas diziam que por aquelas veias corria o mesmo sangue, podia minorar os sofrimentos de seus sobrinhos.
O comendador se levantou e convidou a Meirelles para chegar a uma das janelas da espaçosa sala de visita, parecendo querer mostrar alguma coisa para fora do prédio da fazenda.
Depois de correr o olhar pelos ângulos da sala onde permaneciam, com o intuito de verificar se havia alguém que o escutava, disse-lhe:
— Senhor Meireles; desde que me casei, tenho ouvido dizer que esses rapazes e essas moças são nossos parentes.
E mesmo tenho tido vontade de dar-lhes aquilo o que julgo ser de minha parte; mas não fiz isto ainda, por que seria o mesmo que eu entrar em vida para o inferno. Isto por causa do primo doutor e da prima minha mulher. E Deus o livre, se eles soubessem que vossemecê está tratando disso!
Depois de um momento de pausa, emerso em apreensões, supondo ser ouvido, concluiu em obediência aos impulsos de seu coração:
-Hoje não tenho dinheiro, mas, quando essas pessoas voltarem, mande-as cá, que lhes darei algum dinheiro. Mas não quero que ninguém saiba.
Alguns dias depois Meireles mandou procurar novamente o comendador em São Fernando e este lhe mandou cem mil reis, acompanhados de um bilhete.
E Meireles pegou em outras quantias adquiridas em subscrição, remeteu-as com o bilhete a Bernardo, fazendo prova por meio desse papel que o comendador só tinha dado os cem mil reis.
Comendador Carlos Theodoro de Sousa Fortes prometeu, então, a dar-lhes uma quantia que correspondesse á parte da herança dos mal-logrados descendentes do furriel José Floriano que estava em seu poder.
E a oposição de seus parentes?
À margem do ribeirão da Água Fria que deságua no rio Preto, á sombra de uma pedra de forma retangular, surge uma casa em que, até, há perto da oito anos, morava um médico que era conhecido por doutor Manico.
Era por ali o caminho forçado do comendador Carlos Theodoro para ir à fazenda de Santa Luzia, sita em território mineiro, de sua propriedade.
E no dia 9 de novembro de 1859, por volta das duas para três horas da tarde, quando regressava o comendador do sitio de Santa Luzia, ao passar pela Água Fria. . .
Era Juiz Municipal da Vila do Rio Preto o capitão da Guarda Nacional, Antônio Rodri­gues da Costa Carvalho, terceiro substituto, em exercício. Acumulava também o cargo de Delegado de Polícia.
Ao cair da tarde do dia em que se desenrolaram os acontecimentos na casa do doutor Manico, Carlos Teodoro de Sousa Fortes já se achava na Vila. E formulou uma queixa-crime dirigida a essa autoridade.
Esta declarava que, quando ele queixoso voltava de seu sitio, Santa Luzia, neste termo do Rio Preto, para a casa de sua fazenda, São Fernando, as duas para três horas da tarde, ao chegar á ponte sobre o córrego da Água Fria, bem próxima a casa em que residia o medico, doutor Manico, e que presentemente se achava desabitada, saíram a seu encontro quatro homens, José Bento de Sá Fortes, Antônio de Pádua Fortes, Bernardo de Sá Fortes e José Antônio de Oliveira.
José Bento, segurando o freio do animal que cavalgava o queixoso, gritou ao indivíduo Oliveira que prendesse o pajem que nesse momento procurava se escapar, o que assim foi executado.
Preso e escoltado, foi o queixoso conduzido para a referida casa. Depois de o terem feito apear, o arrastaram para uma varanda, sendo-lhe ai apresentado por José Bento um vidro com tinta e pena.
Obrigou José Bento ao queixoso diversas letras que lhe foi entregando, advertindo-lhe que não tratasse de contrafazer ou desfigurar sua letra e firma e exigiu que esta fosse perfeitamente semelhante à de um bilhete, escrito pelo queixoso há tempos, a Meireles, e que lhe foi apresentado.
Temendo por sua vida e conhecendo a impos­sibilidade de qualquer resistência, aterrado com as ameaças dos atacantes que continuadamente lhe apresentavam as pistolas com que estavam armados, executou Carlos Teodoro tudo quanto lhe foi ordenado, assinando diversas letras, es­crevendo uma ordem de trinta contos de reis aos seus correspondentes na Corte, comendador Antônio Tavares Guerra & Cia., a favor de José Bento e assinando ultimamente um papel que disse ser a sua salvaguarda, mas não permitiu que o queixoso o lesse.
Assim feito, retiraram-se José Bento, Antônio e Bernardo, ficando, entretanto, de guarda ao queixoso o indivíduo José Antônio de Oliveira, que também, afinal, se retirou, ameaçando todos eles tirar a vida ao comendador, se publicasse esse fato.
Dada a queixa, fez o comendador o juramento, em casa do cidadão Mariano Pereira da Sil­va Gemes, onde se achava a autoridade, com o escrivão Cândido Álvaro Pereira da Costa — e que, pondo a mão sobre os Santos Evangelhos, jurava, por sua alma, ser verdadeira a queixa e que ela era dada sem dolo, nem malícia e só a bem da justiça.
E querendo proceder criminalmente contra José Bento de Sá Fortes e seus companheiros, não o podendo Carlos Teodoro fazer pessoalmente por não lhe permitirem desamparar a sua fazenda e não ter pessoa que a administrasse em sua ausência, pediu ao Juiz Municipal que admitisse dar a queixa e acompanhar os transmites da causa, por um seu procurador, obtendo essa licença, em virtude de despacho do substituto do Juízo Municipal.
Constituiu Carlos Theodoro em procuração, o seu advogado, o doutor Manoel Antônio Fernandes, conjuntamente com o advogado José Eleutério de Sant Ana Passos.
Na tarde do dia do fato, o Senhor capitão Antônio Rodrigues da Costa Carvalho, Juiz Municipal e Delegado de Policia, baixou uma portaria, da qual constava que, chegando ao seu conhecimento ter José Bento de Sá Fortes e seus irmãos Bernardo e Antônio e outro individuo compelido a Carlos Teodoro de Souza Fortes a assinar diversas letras de grande valor, e que naquele momento se achavam de trânsito para a vila do Rio Preto, em direção à Corte do Rio de Janeiro; ordenou ao escrivão Cândido Álvaro Pereira da Costa que, ajudado pelos oficiais de justiça e mais pessoas do povo, procedesse à prisão dos mesmos, sem perda de tempo, lavrando o competente auto de prisão e dando as buscas necessárias. Ordenou mais que assim fosse à portaria incipiente cumprida com o auxílio do inspetor do quarteirão.
Passada a portaria e expedido o mandado, foram, em seguida, pelo capitão Costa Carvalho, delegado de policia; José Pedro Duarte, inspetor do quarteirão, Antônio de Brittes Ferreira, oficial de justiça, algumas praças do Corpo Policial e outras pessoas do rancho, que foi de Felix Antônio de Cruzeiro Seixas, sito á praça central da Vila.
De fato, eles ali se achavam acomodando os seus animais e pertences, depois de o solicitarem ao seu novo proprietário.
À Vila só chegaram José Bento, Bernardo e Antônio de Pádua. José Antônio de Oliveira, depois de ter caminhado cerca de meia légua, em direção à vila, junto aos rapazes separaram-se no ribeirão das Três Barras, seguindo ribeirão acima para a casa de Rodrigues.
No rancho da Vila, descansavam os rapazes, combinando descontar os títulos assinados pelo comendador Carlos Teodoro de Souza Fortes, em casa do doutor Manico, com algum capitalista.
Mas a notícia de um assalto ocorrido na Água Fria correu velozmente.
Chegando o comendador a São Fernando, procurou imediatamente o caminho da Vila, a fim de dar as providencias que já expomos, prendendo os rapazes, que obedeceram à ordem e foram conduzidos à cadeia, onde ficaram recolhidos.
Procedeu-se a busca nas algibeiras e roupas dos mesmos presos, sendo, para isso, convidadas as testemunhas Manoel Camillo do Espírito Santo e Manoel José Corrêa Pinto.
Com as formalidades estabelecidas em lei, procederam as autoridades à busca.
Encontraram nas algibeiras do palito com que se achava vestido José Bento, uma carta de ordem sacada por Carlos Teodoro de Souza Fortes contra o comendador Antônio Tavares Guerra & Companhia e a favor do mesmo José Bento de Sá Fortes, da quantia de trinta contos de réis, com data de Santa Clara, 9 de novembro de 1859; uma navalha velha; um passaporte do mesmo José Bento, assinado pelo subdelegado de polícia de Santa Rita de Jacutinga, Vicente Rodrigues de Aguiar, aos 27 de outubro de 1859 sendo este passado para a Corte do Rio de Janeiro.
Procedendo-se igualmente a busca nas algibeiras de Bernardo, nelas foram encontrados os papéis seguintes: uma letra da quantia de doze contos de réis aceita por Carlos Teodoro de Souza Fortes, datada de São Fernandes 25 de outubro de 1859, a doze meses de vencimento; duas ditas de onze contos, cada uma, do mesmo lugar e data, sendo uma a prazo de três e outra de quatro meses; duas ditas de quatro contos de réis cada uma, do mesmo lugar e data sendo uma de prazo de cinco meses e outra de sete meses; uma dita da quantia de cinco contos de réis, do mesmo lugar e data com o prazo de sete meses, seis da quantia de três contos de réis, cada uma, do mesmo lugar e data, sendo uma do prazo de cinco meses, quatro a prazo de seis meses e uma prazo de sete, achando-se todas as referidas letras sacadas e aceitas por Carlos Teodoro de Souza Fortes.
Encontraram-se, ainda, na algibeira do mesmo Bernardo, uma caneta com pena servida, e outras penas novas, de aço, embrulhadas num papel; um vidro de tinta de escrever, uma carta fechada, endereçada a Pedro Gomes de Morais.
Foi encontrado um documento, passado pelo comendador, do teor seguinte:
-“Eu abaixo assinado, Carlos Theodoro de Souza Fortes, tendo pleno conhecimento de que o finado José Floriano dos Santos Fortes era meu cunhado irmão e herdeiro da casa dos falecidos nossos pais; como lhe tivemos denegados esses direitos tendo em nosso poder sua legitima por isso que, tendo esse conhecimento, e para não comprometer minha consciência tenho tratado como de fato tratado está com os herdeiros do dito meu cunhado a dar-lhes a cota que me pertence de herança, e como nesta ocasião não sei o certo que me tocará a pagar, convencionamos em dar por conta da dita herança que me toca pela quantia de cinqüenta contos de réis em letras sacadas, e aceitas por mim de diversas quantias e diversos prazos, e por ser este o nosso contrato faço esta declaração por ser de minha livre vontade, e para que, eu em tempo nenhum pos­sa reclamar, e eles herdeiros possuírem e dispor como melhor lhes convier das ditas letras sem embaraço algum. E para segurança a do referido, mandei passar o presente somente me assino.
São Fernando, 25 de Outubro 1859. (a.) - Carlos Teodoro de Souza Fortes”.
Encontrou-se, mais, um bilhete assinado por Souza Fortes, dirigido a Meireles, constando do mesmo bilhete a remessa de cem mil reis; nos codres dos arreios do animal, a que cavalgava Bernardo, uma pistola de algibeira, carregada e escorvada com espoleta; e, ainda, nas algibeiras, um canivete de mola com ponta e de cabo branco.
Nas algibeiras de Antônio de Pádua Fortes, encontraram-se uma tesourinha e um canivete grande de ponta; nos codres dos arreios do animal do mesmo, uma pistola carregada e escorvada.
Letras, cartas e demais abjetos apreendidos ficaram depositados em juízo em juízo.
Quando o escrivão entregava a Nota Constitucional, isto é, a nota de culpa, aos presos, estes não a aceitaram, assinando como testemunhas desse fato Marcelino Antônio Sobrinho e Antônio Pereira Rios.

Pelo terceiro substituto do Juiz Municipal da Vila do Rio Preto, em pleno exercício desse cargo, capitão Antônio Rodrigues da Costa Carvalho, foi, a 12 do mesmo mês (novembro de 1859), passado mandado, a requerimento do queixoso Carlos Teodoro de Souza Fortes, afim de que fossem citadas as testemunhas João da Silva Rocha, Padre Joaquim José de Carvalho, Antônio Alves Cleto, Domiciniano Teixeira, Marcelino Antônio Ribeiro, Francisco Inácio, José Pedro Duarte, Antônio Pereira Rios e José Vilela de Souza Meireles, para deporem, no dia 14 do mesmo, no processo. Essa formalidade se realizou na Casa da Câmara.
Foi também inquirido o escravo do queixoso, um pretinho de nome Manoel, que lhe servia de pajem.
No dia marcado para o início das investigações, foi qualificado e interrogado o queixoso.
Perguntando como se tinha passado o fato alegado na sua petição de queixa respondeu que tudo pela maneira referida na mesma petição,tendo a acrescentar que, desde muito, lhe consta que os acusados têm pretensões de obter quantias do queixoso, a pretexto de lhes serem devidas por herança. E isto não só por eles o terem declarado, como porque semelhante pretensão teve o pai dos acusados para com os cunhados do queixoso. Dessas pretensões se originou uma inimizade entre os acusados, queixoso e seus cunhados. Disse que não conhece o companheiro de José Bento e seus irmãos. E que ele se achava de ponche, com um lenço que lhe tapava as faces e armado de uma garrucha, duas pistolas e uma faca, o que ele queixoso viu, quando o mesmo indivíduo correu atrás do pajem, que procurava fugir, vendo também que trazia um porta cartucho ou cinturão. E que depois de haverem compelido o queixoso a assinar as letras e papéis, conforme referiu em sua petição lhe entregou o acusado José Bento uma carta do Bispo de Mariana, dirigida a ele, queixoso, em data de 17 de outubro de 1859. Essa carta foi apresentada pelo comendador. O seu conteúdo era uma intercessão que o Arcebispo fazia em benefício de José Bento, afim de que os Fortes Fortes o ajudassem; prestando-lhe alguns meios para que ele se arrumasse.
Foram qualificados pela autoridade: José Bento de Sá Fortes, Bernardo de Sá Fortes e Antônio de e Pádua Fortes.
A primeira testemunha que depois foi João da Silva Rocha, um português com cinqüenta e dois anos, que exercia a profissão de farmacêutico, contratado para prestar seus serviços profissionais na fazenda de Santa Teresa, de propriedade dona Eleuteria Claudina de Souza Fortes. Depois de prestar o juramento revestido dos preceitos legais, disse que o comendador era incapaz de dar uma queixa caluniosa.
A segunda foi Antônio Alves Cleto, solteiro, natural da cidade do Porto, residente na fazenda de São Fernando, onde trabalhava como feitor de turma.
Disse que vinha da Fazenda São José para o sítio de Santa Luzia, fazer um serviço de que estava ali encarregado.
Ao passar pela Água Fria, encontrou com os quatro homens assentados à beira da estrada. Estavam devorando a mateletagem que, prevenidos traziam em embornais. Era comum se encontrarem, pela beira dos caminhos, grupos de pessoas, entregues a um descanso de longas jornadas ou fugindo à canícula, procurando a água fresca resguardada pela sombra amiga duma árvore secular. E pela margem do rio Preto existe muitos desses sítios dignos de figurarem em telas.
Parou Antônio Cleto um pouco na Água Fria, entretendo, com José Bento conversação iniciada por este, com o seguinte diálogo:
- Sei o teu nome e sei onde trabalhas. Chamas Antônio Alves Cleto és feitor de São Fernando.
- Às suas ordens. Como pode saber de meu nome e de minhas condições?
- Oh! Na fazenda de Santa Clara. Passei lá agora a pouco o teu patrão onde está? Procurei-o na fazenda de Santa Clara e lá não o encontrei.
- Sei tanto como tu; não estou vindo de São Fernando e sim de São José.
- Quantas léguas têm daqui a Juiz de Fora?
- Não sei. Da Vila a Juiz de Fora se gasta dia e meio de viagem.
Antônio de Pádua toma parte na conversação, dirigindo essa pergunta ao feitor de São Fernando, apontando para a casa que, noutros tempos, morou o doutor Manico.
-Aquela casa ali tem gente morando?
-Não.
-Se vier alguma chuva, poderemos esconder ali?
-Podem, sim! Ela tem uma varanda aberta para os fundos.
O português feitor se despede e se põe a caminho do sitio de Santa Luzia é ao chegar perto dessa propriedade, encontrou com seu amo que voltava para a casa da fazenda de São Fernando, pelo mesmo caminho que tinha passado, junto da casa em que morou o doutor Manico.
Estando ele depoente em Santa Luzia, só à noite é que chegou á casa da fazenda. Então soube, pelas pessoas da casa que seu amo tinha chegado com muita aflição, devido ao atentado sofrido por parte dos acusados.
E desejando saber alguma coisa a respeito do fato, procurou o pajem de seu amo; e este lhe contou que os quatro homens tinham agarrado em seu amo e a ele pajem, conduzindo seu amo para os fundos da casa do doutor Manico.
Quanto ele depoente chegou a casa, não encontrou seu amo dizendo-lhe o canoeiro que ele tinha ido para a fazenda de São Pedro de Carlos José da Silva. Mesma coisa já lhe tinha afirmado sua ama.
Antônio Alves Cleto termina declarando que nunca se retirando dali; mas Bernardo contestou a firmação, dizendo que ele depoente tinha se encontrado muitos dias antes do fato com ele contestante.
Domiciano José Teixeira, contando 64 anos arreador, residente no povoado de Três Barras, á margem do no Preto, foi a terceira testemu­nha. Era natural da cidade do Serro. Disse que no dia do fato, se achava ele na fazenda do queixoso, na casa da tropa, quando recebeu um recado do comendador, chamando-o.
E, com efeito, indo Domiciano á presença de Carlos Theodoro, ficou surpreendido de ver este tão trêmulo, aterrado e quase sufocado, mal po­dendo falar. Que novidades há comendador? -Fui assaltado por José Bento e outros companheiros que me obrigaram a assinar uns papéis. Quero que, sem, perda de tempo, me leve uma carta ao doutor Gabriel Fortes, na Vila. E entregou ao depoente uma carta dirigida a esse membro dos Fortes Fortes. Domiciano, sem demora, recebeu a carta e se apressou para chegar á Vila, dentro de pouco tempo.
A quarta testemunha foi o oficial de justiça Antônio Pereira Rios, natural de Ibitipoca, contando tardo 47 anos. Disse ser um dos que estavam presentes, quando se fez a apreensão dos objetos que foram encontrados na ocasião em que foram presos os acusados. Viu que foram apreendidas letras e ordens na quantia de noventa e cinco centos e armas.
Por José Bento foram contestadas as afirmações do depoimento de Antônio Pereira Rios, consoante a voz pública ter criminado a eles acusados. O que houve na vila foi criado pelo boato que se espalhou e por se dizer geralmente que eles praticaram semelhante ato.
Se tivessem a intenção que propalam, teriam matado ao comendador e nem viriam de dia para Vila e passariam por outro caminho, do outro lado do rio Preto, divisor das províncias mineira e fluminense.
O depoimento da quinta testemunha José Pedro Duarte; com 46 anos, casado, residente, na Vila, natural da cidade de Ouro Preto, faz referência á prisão dos rapazes e à apreensão.
O pajem que acompanhou o queixoso depôs também no processo, era ele de nome Manoel Pardo, escravo do comendador, com quatorze anos, nascido na fazenda de São Fernando.
Disse que, acompanhando o seu senhor, na quarta feira, de volta do sítio de Santa Luzia para a casa e ao chegar à ponte perto da casa onde morou o doutor Manico, saíram-lhe ao encontro José Bento e um dos acusados presente e seguraram no freio do animal em que ia o seu amo.
Vendo isto, correu para ir chamar gente, mas foi apanhado por um outro indivíduo que estava armado de uma pistola. Mas, quando saltava um córrego, este indivíduo o segurou, caindo ambos dentro d’água, sendo incontinente conduzida» para a varanda onde já se achava o seu senhor, que foi obrigado a escrever uns papéis sobre o peitoril da janela, tendo para isso lhe dado um dos acusados um vidro com tinta e pena.
Depois disso, saíram os rapazes, ficando so­mente um homem, que ele, testemunha informante, não conhece. E esse homem pouco demorou depois que seu amo se retirara.
Achando-se perto, de todos eles, completamente molhado, assustado e com medo, nada pode compreender do que eles diziam.
Depois de bem afastados, os acusados voltaram e disseram a seu amo qualquer coisa queele não percebeu.
Não aceitaram os acusados este depoimento, por ser a testemunha escravo do queixoso.
Antônio de Pádua Fortes foi o primeiro dos acusados que prestou declarações em interrogatório. Respondeu que reside em Campanha desde que nasceu e está fora dessa cidade há três meses mais ou menos. E que no momento do fato criminoso, assunto que evidenciamos, vinha do Pirapetinga para a Vila de Rio Preto. Até aquela localidade veio acompanhado de seu irmão Bernardo. E, dali para a vila, ajuntou-se-lhe seu irmão José Bento. Afirmou que conhece algumas das testemunhas, há uns três anos e que não encontra nenhum motivo particular a que atribuir a queixa ou denúncia dada contra si e seus irmãos pelo comendador Carlos Teodoro.
O advogado do queixoso querendo dar mais vigora prova testemunhal requereu, depois desse interrogatório, ao juiz sumariante, o depoimento de mais três testemunhas: José de Calazans Torres, Joaquim José da Silva Lima e Antônio Monteiro de Vasconcelos.
A dezesseis de novembro; o capitão Costa Carvalho assinou um mandado, ordenando ao oficial de justiça ou ao inspetor de quarteirão, que prendesse e recolhesse a cadeia local José Antonio de Oliveira camarada de João Ramalho Paulista podendo dar busca em casa de dona Ana Caetana (na barra do rio Pirapetinga), onde for encontrado ou causarem suspeitas.
A sede da fazenda de dona Ana Caetana fica na confluência do rio Pirapetinga com o rio Preto poucos metros da foz; de onde se ouve o ronco da majestosa cachoeira que se forma passos abaixo.
É uma casa baixa, de construção nova, espaçosa, em meio de uns cercados, onde existem o curral, a horta e demais dependências necessárias a uma fazenda.
É por ali que passa a estrada feita por Manoel da Silva Pereira Júnior, cruelmente assassinado na Cava Grande, meses após os acontecimentos que tentamos fazer registro
Esse caminho faz ligar a estrada Presidente Pedreira que se finda em Conservatória na província do Rio de Janeiro à freguesia de Bom Jardim do Turvo, colocando em comunicação com a Corte à aurífera zona do rio das Mortes.
E no dia seguinte ao que foi passado o mandado de prisão contra os acusados José Antônio de Oliveira, foi este preso pelo inspetor do quarteirão Francisco Antônio Duarte da Silveira, depois que lhe foi entregue por dona Ana Caetana, pondo à disposição do policial uma garrucha e um cinturão em que se carrega o cartuchame pertencentes ao acusado.
À tarde desse mesmo dia, foi recolhido á cadeia da Vila, recebendo ali a nota constitucional.
No interrogatório, respondeu chamar-se José Antônio de Oliveira, natural da Província de São Paulo, residente São José da Campanha de Toledo, desde a sua infância, filho de Antônio de Oliveira Silva e Luisa Maria de Jesus, com trinta anos, casado, e que empregava o seu tempo em negócio de animais.
Passou a relatar que, no dia 9 de novembro achando-se ele em casa de dona Ana Caetana, soube que ali passaram a noite anterior, José Bento e seus irmãos Antônio e Bernardo, os quais depois do almoço montaram a cavalo saíram; ficando ele respondente cuidando ainda dos animais, que eram de sua propriedade.
Passados momentos, quando já iam bem afastados os três irmãos, despediu-se das pessoas da fazenda, montou a cavalo e seguiu em direção da Vila pela estrada margeante do rio Preto.
Em caminho, junto a um córrego, perto de uma casa desabitada em que noutros tempos morou o doutor Manico. Encontrou os três rapazes, assentados na beira da estrada, com seus embornais de matalotagem no chão, devorando-lhes o conteúdo.
Insistindo os rapazes para que ele respondente tomasse parte nessa refeição, aceitou e comeu um pouco. Passado algum tempo, quando ia se retirar,a fim de prosseguir viagem, começou a chover resolvendo, então, procurar um abrigo para se resguardar.
E recolheu-se á dita casa para onde se dirigiram também José Bento e seus irmãos.
Não obstante a chuva que caia daí a pouco, apareceu, na volta do caminho, o comendador Carlos Teodoro, que dirigia para a sua fazenda - São Fernando.
E um daqueles rapazes ordenou-lhe, imperativamente, que descesse para a estrada, sem perda de tempo.
O respondente, sem saber do que se tratava, ficou estupefato. Mas, diante do modo brusco com que lhe foi transmitida a ordem, decidiu cumpri-la, descendo com mais dois daqueles companheiros.
E chegando á ponte sobre o córrego da Água Fria, um daqueles dois irmãos segurou o freio do animal em que ia montado o comendador Carlos Teodoro, que foi levado para a casa que lhe servira de abrigo.
Um dos rapazes que havia ficado na casa saiu ao encontro do comendador e se aprestou cm conduzi-lo para dentro da casa.
Afirma que não acompanhou os rapazes que conduziram Carlos Teodoro, porque, na ocasião em que cercaram este, como o pajem tratasse de fugir, ele respondente correu e o segurou por ordem de um daqueles homens, cerceando-lhe todos os movimentos.
E, quando voltava com o pajem, apanhou ainda José Bento e seus irmãos, que conduziam o proprietário da fazenda de São Fernando, em caminho, já bem próximo á casa.
Quando ai chegou, encontrou Carlos Teodoro entre José Bento e seus irmãos escrevendo uns papéis, sobre o peitoril da janela, ao fundo da casa.
Não viu quem deu tinta e pena para essa escrita, porque depois de entregar o pajem a José Bento, voltou a cava para procurar um lenço que caiu quando correu para segurar o pajem.
E tendo demorado nessa procura, não presenciou qual foi o modo com que Carlos Teodoro, teve em suas mãos, tinta e pena.
Não sabe qual dos três rapazes que guardou esses objetos.
Desceram para a estrada o comendador José Bento. Afastaram-se e José Bento procurou aproximar-se do comendador.
E este já acomodado nos arreios e aquele de pé, entabularam conversação demorada.
Ele respondente nada percebeu desse colóquio devido: à distância que os separava
Reuniram-se, ele respondente e os rapazes; e puseram-se a caminho, em direção à Vila. Caminharam meia légua juntos e separaram-se no lugar denominado Ribeirão das Três Barras. Seguiu margeando o ribeirão desse nome, em direção á casa de Rodrigues.
E os rapazes prosseguiram viagem com destino à Vila.
Quando foi preso, ele, interrogado, trazia consigo uma garrucha, afirmou que era de seu hábito conduzir armas quando viajava.
Declara ter visto os papéis que foram assinados pelo comendador, mas não sabe dizer o que eram. Sabe dizer apenas que eram de grande valor. Tinham um palmo de comprimento por meio de largura e havia, entre eles, uma carta de ordem de grande valor, contra importante firma da Corte. Terminou o seu longo depoimento, declarando que si praticou tal ato foi a convite de José Bento e seus irmãos.
Nunca pensara em praticar tal coisa por sua conta.
Assinou o respondente, muito mal, o seu nome no auto de interrogatório, tirando, deste fato, a conclusão de que o acusado não possuía os conhecimentos que seus companheiros conduziam.
Era um companheiro arranjado a ultima hora, que agiu sem conhecimento de causa.
A prova testemunhal ainda continuou com o depoimento de mais algumas pessoas cujos no­mes ficaram em foco durante os dias que descrevemos.
Joaquim José da Silva Lima, era um sapateiro que morava em Bom Jardim, contava os seus cinqüenta anos; em depoimento declarou que há mês pouco mais ou menos, estando em sua casa, em Bom Jardim, fora convidado, por um dos três irmãos Fortes, que, por se pareciam muito, não pode afirmar si fora Antônio ou Bernardo, mas que tem toda a certeza de ser um deles dois para acompanhá-lo até a casa de um indivíduo que lhe devia uma boa quantia. E devia ir ar­mado com mais outro companheiro e obrigá-lo a pagar o que pudesse; e, o restante, passar clarezas.
A essa proposta respondeu, ele, testemunha, que nunca tinha servido de capanga, que era muito conhecido na vizinhança e por isso não se prestava ao pedido que se fazia.
-Disse-lhe que o devedor era homem medroso e que, vendo dois homens armados, não duvidaria em trazer-lhes algum dinheiro e passar-lhes clareza.
E que, vindo de Bom Jardim para esta vila, soube em casa de dona Ana Caetana que os dois acusados Bernardo e Antônio, tinham ido ao lugar denominado Mata Cachorro [1] a ajus­tar com Desidero de tal para seguir viagem com os acusados para o Rio de Janeiro.
Desidero fez, ajuste com os, rapazes, vindo até a casa onde se achavam, pedindo em cami­nho, nos Ferreiras, duas armas de fogo. Ignora porque Desidero, da casa de dona Ana Caetana, voltara para a sua casa, abandonando aos rapazes.
Na fazenda de dona Ana Caetana, os dois acusados andavam sempre conversando distante da casa. Quando alguém a eles se aproximava, calavam-se logo.
Tudo isso sé deu na véspera do assalto, despertando desconfianças às demais pessoas da casa. Todos afirmavam, com reservas, que os rapazes planejavam fazer mal a alguém.
Os acusados contrataram, nessa fazenda, ao indivíduo José Antônio de Oliveira, para acompanhá-los e obrigarem o Carlos Teodoro de Souza Fortes a assinar letras, cartas e mais papéis.
Esse indivíduo, depois de se dar o fato, se escondera no mato pelo tempo de três dias e que lá dormira.
Antônio de Pádua contestou este depoimento, dizendo que se foi ao Bom Jardim ajustar a ele, testemunha, foi para servir de camarada para a Campanha. Proposta a que não aceitou, ele testemunha, por falta de animal.
A sétima testemunha que depôs foi José de Calazans Torres, com vinte, e dois anos, solteiro, oficial de alfaiate, morador em Santa Rita de Jacutinga, natural de Rezende, província do Rio de Janeiro.
Ouviu dizer que José Bento convidara a Manoel Lino e a um homem cujo sobrenome era Carneiro, para uma viagem longa e que Manoel Lino voltara do caminho, bastante arrependido.
A requerimento do advogado do queixoso expediu-se mandado para a citação de Desidero que veio depor. Declarou ter quarenta e quatro anos, lavrador, viúvo, morador no lugar denominado Mata Cachorro, distrito de Santa Rita, natural de Pouso Alto.
Disse que na quinta feira, antes de seis de novembro de 1859, estando, ele depoente, em sua casa, ali foi ter com ele um José Grande e lhe disse que uns moços que se achavam em Santa Rita, o mandaram convidar para uma viagem à Vila e que, ele testemunha, fosse à casa de dona Ana Caetana se ajustar com os mesmos moços.
Não podendo sair logo, só no domingo que pode estar com o mesmo José Grande ou Jo­sé Silvério Filho, na casa de João Ferreira, de on­de saiu para casa de dona Ana Caetana, jun­tamente com José Antônio de Oliveira que também ia para a mesma casa.
Tendo ali pernoitado a fim de se entender com os moços, estes não lhe apareceram resolvendo regressar a sua casa, na manhã do dia seguinte.
Apenas chegou a casa apareceu ai Antônio Cândido dizendo-lhe que os moços lhe manda­ram chamar e que estavam a sua espera no Caminho do Boqueirão da Mina.
E não podendo voltar, nesse dia, saiu terça feira para tratar com os rapazes.
Encontrou com eles na estrada do Boquei­rão da Mina. Tinham ai passado a noite ao relento.
Procurando saber para onde era a viagem, os moços perguntaram-lhe si José Grande não lhe tinha explicado, respondendo ele testemunha negativamente.
Disseram-lhe os acusados que pretendiam fazer uma tocaia a Carlos Teodoro de Souza Fortes para obrigá-lo a assinar uma letra e ordem de grandes valores e que viriam a cidade levantar esse dinheiro e então dariam uma boa gratificação a ele, testemunha.
Foi o depoente animado pelos rapazes cm questão de coragem. Se ele não fosse roncador, deveria fingir-se de valente, porque sendo; aque­le Carlos medroso, logo se intimidaria e assinava as letras.
Disseram-lhe os acusados que tinham de fazer a primeira tocaia ou esperar no lugar denominado Água Limpa, perto da casa onde morou o doutor Manico porque, o mesmo, Carlos Teodoro, por ai transitava constantemente.
E se essa tocaia falhasse, iriam esperá-lo do outro lado do rio, no caminho entre as fazendas de São Fernando e São Luis, por onde também muito transitava Carlos Teodoro
Tendo ele, testemunha ouvindo essa proposta tratou de se retirar, alegando o falta de animal.
Voltou para casa com o firme propósito de avisar àquele Carlos Teodoro.
Acontece, porém; que quando saiu de sua casa com a intenção firmada no dia anterior, dor­mindo em meio do caminho, não pode dar aquele aviso, em tempo, pois de passagem na casa de dona Ana Caetana, já na quinta feira, soubera que os acusados tinham levado a efeito os seus projetos e que haviam sido presos, de passagem pela Vila.
Depôs, também, uma testemunha referida - Antônio Monteiro de Vasconcelos, de vinte a­nos, jornaleiro, solteiro, português, morador no distrito de Santa Rita.
Disse que morando ele, testemunha, em casa de dona Ana Caetana, ai viu os réus Antônio e Bernardo, alguns dias antes do fato.
Entretinham-se em conversa, e, quando o.depoente se aproximava eles, se calavam, re­ceando a presença de outrem, o que despertou nele, depoente, desconfianças das intenções dos rapazes, que não mostravam serem boas.
Depois dos acontecimentos do dia 9 de No­vembro, ouviu ele, depoente, dizer pelas pes­soas da casa, que os acusados tinham contratado com José Antônio de Oliveira a violência de que são acusados.
Também ouviu dizer que os acusados ajus­taram a Desidero, bem como a Manoel Lino Carneiro para os ajudarem, ao que não lhes prestaram.
Ai está a prova testemunhal como bem consta do processo original.
Prosseguiremos, e vamos ouvir o que os acusados depuseram em um interrogatório.
Concluindo o sumário de culpa, pelo substitu­to do Juiz Municipal da Vila, foram interroga­dos os acusados.
O primeiro a prestar declarações foi José Antônio de Oliveira.
Disse que estava em uma casa desabitada, pertencente a Carlos Theodoro, onde morou o doutor Manico ao tempo do acontecimento em evidência; e ratifica suas respostas dadas em interrogatório feito depois da prisão; das pessoas que depuseram no processo, conhece umas de pouco tempo, outras, não; não tinha nenhum motivo particular a que atribuir à queixa ou denúncia dada contra ele.
Perguntado se tinha fatos a alegar ou provas que os justifiquem ou mostrem a sua inocência, respondeu que foi iludido pelos outros acusados, a quem acompanhou, sem compreender a gravidade do crime que eles praticavam.
Em seguida, Bernardo veio prestar declarações. Disse que tinha por meio de vida um pequeno negócio, em Campanha; que, ao tempo do fato delituoso, vinha do Pirapetinga em direção desta Vila; que conhece duas testemunhas que depuseram no processo; que atribui a queixa dada pelo comendador Carlos Theodoro, ao motivo de não querer este restituir a ele, declarante, a legitima que lhe pertence, a qual tem em seu poder; que não sabe, ao certo, a quanto importa essa legitima.
Perguntado como havia exigido letras de or­dens na importância de noventa e cinco contos, respondeu que uma das letras de doze contos não tem valor, por estar sem efeito, bem como mais algumas, na importância de trinta contos de réis, em virtude de uma carta de ordem que Carlos Theodoro deu a eles, acusados, em Santa Clara, no dia 9 do mês que decorre.
Perguntado se as letras e papéis foram escritos e assinados pelo queixoso com tinta que eles, acusados, levavam em um vidro que foi apreendido na ocasião da prisão deles, respondeu que as letras foram aceitas e firmadas pelo queixoso com a tinta desse dito vidro, mas não a carta de ordem, porque esta o foi de um tinteiro de San­ta Clara.
Perguntado em que lugar foram aceitas as letras, respondeu que na fazenda de S. Fernan­do, no dia 25 de Outubro, para o que foi ele, respondente, o seu irmão Antônio. Foi-lhe mais perguntado em que lugar da casa foram assinadas estas letra, se no escritório ou na sala, se sobre mesa redonda ou quadrada e quais as mobílias ou trastes existentes nesse lugar.
Respondeu que foi em uma sala logo ao entrar, mas não pode lembrar-se da mobília que ali se achava, e nem reparou nela, assim como na mesa em que escreveu; se era redonda ou quadrada.
Foi perguntado mais se as letras e mais papéis foram ali escritos. Respondeu que não, pois ali só foram assinados, pelo queixoso porquanto ele, respondente, as levou já, passadas, assim como levou já pronto o papel do contrato, o qual foi escrito pelo irmão dele, respondente, de nome Antônio, e as letras foram por este, algumas, e outras por ele, respondente.
Perguntado como sabia ele, respondente, que o queixoso estava pronto para assinar estes papéis; respondeu que em setembro, fazendo ver ele, respondente, e seu irmão Antônio ao queixoso, as suas má situações e circunstâncias e que tinham a legítima deles em seu poder, o queixoso lhes dissera que havia de dar alguma coisa, para o que levou ele, respondente, os ditos papéis, visto que conhecendo este, ser queixoso, homem de resolução, podia ora querer ora não querer.
Foi-lhe perguntado mais qual o valor das letras e papéis por que se obrigou a dar. Respondeu deu que, por tudo, cinqüenta e três contos.
Perguntado como apareceram letras e ordens da quantia de noventa e cinco contos, respondeu que, havendo prazo nas letras, exigiram a carta de ordem com o fim de receberem o seu va­lor prontamente, mas passaram dela, um re­cibo para ser debitado nas letras, bem como uma letra de doze contos, que ficou inutilizada pelo mesmo recibo, e que foi aceita pelo quei­xoso, por engano, e que se acha emassada no meio das outras. Disse mais ele, responden­te, que o papel de contrato e pelo qual o quei­xoso se obrigou a dar cinqüenta contos, sendo o excesso dessa quantia, que é de três contos, dessa o desconto dessa importância.
Perguntado si ele, respondente e seu irmão têm tal grau de confiança para com o queixo­so que se obrigando esse por cinqüenta contos lhes confiasse letras e ordens no valor de noventa e cinco contos, respondeu que passou o recibo da ordem como já disse, bem como da letra e que nenhuma relação de amizade tinha com o queixoso.
Perguntado si tem fatos a alegar ou provas que justifiquem ou mostrem a sua inocência, respondeu que ninguém viu nem o queixoso pode dar provas, que ele acusado pode dar mais provas de sua inocência.
O terceiro a ser interrogado foi José Bento. Respondeu que reside em Santa Rita há seis meses, mais ou menos, que estava a caminho desta vila, quando se deu o crime; que das pessoas que depuseram no processo, conhe­ce algumas de pouco tempo, outras não; que tem fatos que comprovam a sua inocência sendo o primeiro, ter ele, acusado, passado por esta Vila no dia 9 do corrente.
Perguntado por que meio houvera ele acusado, e seus dois irmãos a ordem de trinta contos de réis, letras na importância de sessenta e cinco contos de reis e mais papéis que foram apreendidos por ocasião de ser o acusado preso, respondeu que as letras e papel de contrato, o queixoso os assinou e os entregou a seus irmãos, no dia 25 de outubro do corrente ano, e que não sabe quem foi o indivíduo que encheu as letras e papel do contrato; que o queixoso convencionou com seus dois irmãos Antônio e Bernardo a dar-lhes a quantia de cinqüenta contos de reis.
Perguntado como foram apreendidas letras e carta do valor de noventa e cinco contos de réis, respondeu que trinta contos da carta de ordem, era para abater nas letras; e uma letra de doze contos de réis estava inutilizada por falta de selo.
Perguntado que grau de confiança tinham os dois acusados, irmãos do respondente para o queixoso, a ponto de só ter de dar cinqüenta contos em letras e deixar em poder deles no­venta e cinco contos de reis, respondeu que não sabia explicar, mas que era verdade que não existir relação de amizade entre o queixoso e os dois irmãos do acusado; que não sabia se as letras e papel do contrato foram escritos pelo queixoso ou por seus irmãos; que a carta de ordem não a viu passar, por ter-se demorado em baixo do sobrado; em Santa Cla­ra, quando seus irmãos foram exigir a dita carta.
Quando subiu, a carta, já havia sido passada e entregue a um de seus irmãos.
Perguntado em que época o queixoso conven­cionara com o acusado em dar-lhes a quantia de cinqüenta contos, respondeu que não sabia, nem seus irmãos lhe disseram e, nem ele comunicara tal coisa a eles, assim como não tem partes nas letras e, nem soube delas, senão quan­do, seus irmãos lhe apresentaram; que igualmente só teve conhecimento do papel do contrato quan­do seus irmãos lhe mostraram.
Perguntado mais se a carta de ordem de trinta contos foi escrita com tinta do vidro que foi apreendido, respondeu que não sabia, mas estava certo de que em Santa Clara não vira depois de feita a carta de ordem, se seus irmãos guardaram algum tinteiro. Antônio de Paula Fortes foi o ultimo a ser interrogado.
Respondeu que, andando para esta vila, vindo do de Pirapetinga, em companhia de seus irmãos José Bento e Bernardo, nessa ocasião se deu o fato criminoso de que é acusado; das pessoas que depuseram no processo conhece duas e de bastante tempo. Perguntado se tinha algum motivo particular a que atribuir a queixa, respondeu que sim; é a de não querer o queixoso dar o que lhe, pertence.
Como explicava ele, acusado, achar-se em poder dele e seus irmãos a carta de ordem e letras, na importância de noventa e cinco contos de réis, respondeu que ele, acusado e seu irmão Bernardo, em dias de setembro, foram à fazenda de São Fernando pedir a Carlos Theodoro que desse o que lhes pertencia, e tiveram por resposta que mais tarde havia de lhes dar alguma coisa. E no dia 25 de outubro, ele acusado e um de seus irmãos, apresentaram-se em São Fernando, com as letras já cheias na importância de cinqüenta e três contos, e as quais foram aceitas pelo senhor Carlos Theodoro,bem como uma de doze contos, sem selo, que foi assinada, por estar no meio das outras, mas ficou inutilizada.
Nessa mesma ocasião, Carlos Theodoro assinara um papel de contrato, escrito por ele, respondente, e pelo qual se abrigava a dar ao acusado e a seus dois irmãos José Bento e Bernardo, a quantia de cinqüenta centos de réis.
A carta de ordem, na importância de trinta centos de réis, foi passada no dia 9 do mês cor­rente, na fazenda de Santa Clara e entregue por Carlos Theodoro a José Bento de Sá Fortes, ir­mão do acusado.
Seu irmão José Bento não foi nesse dia, a Santa Clara, por estar ocupado em Santa Rita, mas se achava inteirado desse negocio, por lhe haverem comunicado ele, respondente, e seu ir­mão Bernardo.
Perguntado por que razão ele e seus irmãos tinham prevenido de tinteiro e pena para obterem essas assinaturas do queixoso, respondeu que as letras foram aceitas e os papeis assinados com tinta que havia no tinteiro que se achava na casa do queixoso.
Perguntando em que cômodo da casa que teve lugar essas assinaturas; qual a mobília; de que qualidade era o tinteiro; que o feitio tinha a mesa sobre que escreveu; respondeu que foi em uma sala, não sabe se na primeira ou na segunda, não sabe que qualidade era a mobília nem o feitio da mesa, nem a forma do tinteiro, porque não foi para lá para reparar nessas coisas. E que era costume de seus irmãos conduzirem, nas viagens, tinta e pena. Que não conhece José Antônio de Oliveira. Só o tinha visto, pela primeira vez, no Pirapetinga, em casa de Dona Ana Caetana.
Se tiver fatos a alegar ou provas que justifiquem sua inocência, respondeu que o queixoso, não apresenta testemunha para acusá-lo, quando ele, respondente, prova que veio só com seus irmãos; que os papéis e letras foram assinados pelo queixoso, tendo sido o papel do contrato escrito por ele, respondente, sobre a mesa do queixoso, no dia 25 de outubro.
O doutor Manoel Antônio Fernandes, advogado do comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes, requereu em 23 de Novembro de 1859, ao Juiz Municipal, o exame de tinta contida no tinteiro apreendido, a fim de se averiguar se era a mesma com que foram assinados os papéis.
E a 29 do mesmo mês, os peritos nomeados, Lucas Antônio Duarte e Manoel Camilo do Espírito Santo, procederam às respectivas diligências sobre a letra da carta de ordem de trinta contos, que se acha nos autos, e combinando a qualidade da tinta das assinaturas e conteúdo do vidro que foi apreendido em poder dos acusados, responderam ser a tinta do vidro e a com que foi escrita a ordem, a mesma que continha no tinteiro, pela perfeita seme­lhança na sua cor. E que a mesma tinta foi a dos aceites e firmas das letras.
Em procuração passada no tabelião publico do judicial e notas da vila de Rio Preto, Cândido Álvaro Pereira da Costa, em 16 de novembro de 1859, José Bento de Sá Fortes, Antônio de Pádua Fortes e Bernardo de Sá Fortes, constituíram o seu defensor, o advo­gado José Felipe dos Santos [2]
Em despacho, datado de 23 de novembro de 1859, do Juiz Municipal e Delegado de Poli­cia, Antônio Rodrigues da Costa Carvalho, foram pronunciados os réus, da maneira seguinte:
-”Julgo procedente a queixa a vista dos depoimentos das testemunhas, interrogatórios dos réus e o mais que dos autos consta; e pronuncio os R. R. José Bento de Sá For­tes, Antônio de Pádua Fortes e Bernardo de Sá Fortes, como incursos no art. 269 combinado com os artigos 34 e 267 do Código Criminal e o Réu José Antônio de Oliveira como in­curso no artigo 269 combinado com os artigos 34 e 35 do mesmo Código, obrigando-os todos à prisão. O es­crivão lance os nomes dos réus no rol dos culpados e os recomende na prisão em que se acham, e paguem eles à custa.
Declaro que residindo algumas tes­temunhas distantes desta Vila mais de dez léguas, alem disso achando - se o escrivão deste processo exercen­do as do escrivão do júri na sessão que se concluiu a 20 do corrente, não pode ter lugar a formação de culpa aos réus já mencionados, no prazo de 8 dias. Rio Preto, 23 de Novembro de1859. — Antônio Rodrigues do Costa Carvalho.
Em petição, dirigida ao Juiz Municipal, datada de 26 de novembro, os réus recorreram para o Juiz de Direito da Comarca (Paraibuna), do despacho de pronúncia; essa petição foi assinada pelo advogado José Felipe dos Santos.
Em 23 de maio de 1860, o comendador Car­los Teodoro de Souza Fortes constituiu seu procurador o doutor Joaquim Saldanha Marinho, nome de projeção nacional, que articulou o libelo contra os acusados, subindo os autos, em grau de recurso, a Juiz de Direito de Paraibuna.
Em 26 de maio de 1860, o doutor Ângelo da Mota Machado, novo Juiz Municipal de Rio Preto, deu o primeiro despacho nos autos que ate então vinham tendo curso sob a jurisdição do então Juiz municipal Antônio Rodrigues da Costa Carvalho, que morava na fazenda da Boa Vista de São Pedro, onde despachava.
Sob a presidência do Dr. Ângelo da Mota Machado, Juiz de Direito substituto, a 16 de Julho de 1860, foram os réus julgados pelo Tribunal do Júri.
Em plenário, foram interrogados os réus. E José Bento de Sá Fortes respondeu que as letras foram aceitas em casa do Dr. Manico, mediante combinação feita com o comendador Carlos Teodoro.
Que no dia25 de outubro, indo levar uma carta do senhor Bispo a Carlos Teodoro, este, em vista da carta, combinara, com ele réu, se encontrarem na referida casa e ali passarem as referidas letras.
E para isso devia ele, depoente, ir com seus irmãos, no dia 09 de novembro, àquela casa, a fim de passar as referidas letras; e que estas já deviam ir cheias, com a data de 25 de outubro e que o papel do contrato fosse de cinqüenta contos, cobrindo esse valor com cinqüenta e três contos em promissórias- três contos –para juros.
Combinado isso, voltou para casa e contou esse resultado de entendimento havido com o comendador e pedia-lhes que enchessem as letras no valor de cinqüenta contos.
Em conseqüência das boas maneiras com que havia tratado Carlos Teodoro, seu tio, ele respondente, achou conveniente mandar encher mais uma letra de doze contos, porque sendo ele pobre e tendo numerosa família, pedira também a seus manos que enchessem a dita letra de doze contos, para que, na ocasião em que ó comendador aceitasse as outras, aceitasse também essa.
Afirmou que o procedimento do comendador Carlos Teodoro e sua família para com eles, acusados
Que, na ocasião, não veio aramado e não trouxe capanga, dando-lhe essa importância, era medida para se livras deles, pois, de longa data, vinham insistindo para obter aquilo que lhes pertencia - herança paterna que se achava em suas mãos.



Sob a presidência do doutor Ângelo da Motta Machado, Juiz de Direito substituto, a l6 de julho de 1860, foram os réus julgados pelo Tribunal do Júri.
Em plenário, foram interrogados os réus. E José Bento de Sá Fortes respondeu que as le­tras foram aceitas em casa do doutor Manico, mediante combinação feita com o comendador Carlos Teodoro.
Que no dia 25 de outubro, indo levar uma carta do senhor Bispo a Carlos Teodoro, este, em vista da carta, combinara, com ele réu, se encontrarem na referida casa e ali passarem as referidas letras.
E para isso devia ele, depoente, ir com seus irmãos no dia 9 de novembro, àquela casa, a fim de passar as referidas letras; e que estas deviam ir cheias, com a data de 25 de outubro. E que o papel do contrato fosse de cinqüenta contos cobrindo esse valor com cinqüenta e três contos, em promissórias - três contos para juros.
Combinado isso, voltou para casa e contou esse resultado de entendimento havido com o comendador e pedia-lhes que enchessem letras no valor de cinqüenta contos.
Em conseqüência das boas maneiras com que havia tratado Carlos Teodoro, seu tio, ele respondente, achou conveniente man­dar encher mais uma letra de doze contos, por ­que sendo ele pobre e tendo numerosa famí­lia, pedira também a seus manos que enches­sem a dita letra de doze contos, para que, na ocasião em que o comendador aceitasse as ou­tras, aceitasse também essa.
Afirmou que o procedimento do comendador Carlos Teodoro e sua família para com eles, acusados, dando-lhe essa importância, era medida para se livrar deles, pois, de lon­ga data, vinham insistindo para obter aquilo que lhes pertencia - herança paterna que se acha­va em suas mãos.
Que, na ocasião, não veio armado e não trouxe capanga.
Em sua companhia vieram apenas seus irmãos. E que todos os papeis foram assinados em casa do doutor Manico e afirmou:
Que o seu primeiro interrogatório não foi exato, porque entendeu que se dissesse a verdade, o autor lhe perseguiria, por ficar patente a calúnia e que dizendo ao contrário, ele autor, longe de perseguir na ação que lhe havia intentado, daria alguma coisa. E não obtendo o efeito esperado, o comendador continuou a persegui-lo.
E, resolveu declarar, nesse último interrogatório, a verdade do ocorrido. O que afirma já o afirmou muito antes do primeiro interrogatório, a José Eleutério de Sant Ana Passos que sabe de tudo que se passou em casa do doutor Manico, dito por ele interrogado.
Declarou finalmente que pediu a carta de ordem ao comendador, sacada contra firma do Rio de Janeiro, ao que ele Carlos Teodoro prontamente anuiu, passando toda por sua letra. E, que ele, respondente, passou um recibo da dita carta para ser levado em conta nas letras, caso a ordem não fosse cumprida.
Bernardo de Sá Fortes que não foram os papéis extorquidos a força, como alega Carlos Teodoro. Que esses papéis foram passados por conta da herança de seu pai - José Floriano.
Que as letras foram cheias, a mando de seu irmão, em Santa Rita de Jacutinga, por ele e seu irmão Antônio.
Perguntado qual a razão porque tendo ele havido combinação, como confessa, é agora acusado por crime de roubo, respondeu que atribui esse fato ao desejo que tem o autor e sua família de acabar com ele e seus irmãos, a fim de que não exijam o que lhes pertence.
Que não sabe se o autor refletiu ou não alguma coisa na ocasião em que houve a combinação, porque ela não foi perante seu irmão.
Que ele veio apenas acompanhado de seus irmãos; e que não vieram armados. E se dirigiram à casa do doutor Manico, foi porque o autor lhes havia dito que em sua casa não podia ser. Se eles, a fossem, provocariam um ba­rulho em sua família.
Que seu primeiro interrogatório não foi exato, porque seu mano José lhe pedira que não falasse a verdade, porque ficava muito feio ao comendador Carlos Teodoro a calúnia que lhes armava.
Supondo que o autor diante dessa resolução dos acusados, em não revelar o fato diante da luz meridiana da verdade, provocaria em Carlos Theodoro um novo sentimento: deixá-los em paz e não prosseguir com o processo.
Mas, como não obtiveram esse resultado, resolveram dizer as coisas, como em verdade elas são. Antônio de Pádua Fartes respondeu que as letras foram cheias por ele, acusado, e seu irmão Bernardo, em Santa Rita de Jacutinga, em casa de seu irmão José; que não disse a verdade, no primeiro interrogatório, na esperança de que o comendador Carlos Theodoro, levado pelo remorso, deixaria de persegui-lo, envolvendo o seu nome e o de seus irmãos num processo sem origem plausível.
José Antônio de Oliveira respondeu que era acusado, porque o senhor Carvalho dissera ser ele capanga dos irmãos Fortes.
Perguntando qual a razão porque tendo dito que não conhecia os acusados presentes - José, Antônio e Bernardo, quando no primeiro interrogatório, disse que os vira conduzir o autor para a casa do doutor Manico, e que ele, res­pondente, por ordem de um dos acusados, tinha ido agarrar ao pajem do autor; respondeu que disse isto no primeiro interrogatório, porque o senhor Carvalho lhe afirmara que ele seria salvo si respondesse dessa forma.
Perguntado quem é esse Carvalho, respon­deu que se refere ao Delegado de Policia, E não sabe qual é o interesse que ele tem nes­sa causa, pois insistiu para que ele afirmasse ter sido capanga dos irmãos Fortes, recebendo, em troca, uma boa gratificação de Carlos Theodoro. Quando confessou o que se acha no primeiro interrogatório, não foi com intuito de receber gratificação e sim obter a sua liberdade,como lhe foi prometido por esse “senhor" Carvalho. E que, terminando o processo, indo Carva­lho à guarda, e perguntando a ele responden­te, a razão por que tendo ele cumprido o que lhe foi determinado,ele Carvalho, ainda o conservava na enxovia. Respondeu-lhe o Delegado de Polícia que só na ocasião do Júri poderia soltá-lo.
Terminado o interrogatório dos acusados, foi dada a palavra ao advogado do autor, doutor Ma­noel António Fernandes e aos advogados de defesa dos acusados.
Depôs, em plenário, a testemunha de defesa José Vilela de Souza Meireles.
O advogado do autor disse à margem desse depoimento que é o principal autor desse rou­bo e protetor dos salteadores, o qual os tem acoitado em sua casa sustentando-os e dando lhes dinheiro para compra das letras seladas codissemo o ladrão a José Grande; e está fugido.
José Vilela de Souza Meireles, nesse depoi­mento, desceu às minuncias dos factos que antecederam ao acontecimento da Agua Fria.
Vieram ao conhecimento do Tribunal, as promessas do comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes aos rapazes, as ajudas que ele, por algumas vezes, as proporcionara, por inter­médio do depoente.
E que o bilhete escrito a ele, pelo co­mendador, foi entregue a Bernardo, a fim de fazer prova, por seu intermédio, de que Carlos Theodoro só havia lhe dado cem mil reis; e que o aparecimento desse bilhete nos autos não tem outra significação senão esta, pois se fosse pa­ra que os rapazes conhecessem a firma do se­nhor Carlos Theodoro, lhes teria dado uma firma por inteiro, e não apenas a rubrica, pois ele depoente possue muitas cartas com seu nome inteiro. Isso pode apresentar ao Tri­bunal para se ver somente a firma. E as apresentou.
Houve replica e treplica; e contrariedade do libelo pelo advogado dos acusados, José de Rezende Teixeira Guimarães.

Os rapazes acusados nesse movimentado processo, afim de robustecer a prova para a sua defesa, requereram juntada ao processo lei­tura do seguinte documento, em plenário:
José Carlos Martins, Cavalheiro da Ordem de Cristo, Cônego Honorario da Sé Catedral de São Paulo, Pároco Confirmado nesta Igreja, Paroquial São José e Dores das Al­ienas, Vigário da Paróquia,juiz de Dis­pensas matrimoniais, Delegado Estraordinário. de S. Revma nas Cativaras de Alienas e Caldas, deste Bispado de São Paulo.
Atesto e faço certo que desde a minha infância, ouvi sempre dizer a meus Parentes, a minha Tia Teresa Claudiana da Silveira, à Esmeria Custo­dia, preta forra que foi escrava de minha Avô, e a muitas pessoas, que o fl­uido meu Primo José Floriano dos Santos era filho natural deminha Tia Joaquina Felísberta da Silveira; irmã de minha Avô Ana Custodia da Silvei­ra; e não só eu,como todos os parentes desta circunvizinhança tratamos sempre como bom Parente, e Amigo, sendo eu mesmo padrinho de uma sua filha e minha Tia Teresa Claudiana da Silveira e minha Irmã Venância Custodia da Silveira , madrinha de duas outras.
Atesto outro sim que, tendo o mesmo meu Primo José Floriano dos Santos pedindo a mim carta de recomendação, para a dita minha Tia Joaquina Felisberta da Silveira, e para os meus Primos — seus Irmãos Dr. Antônio Joaquim Fortes Bustamante e Comendador- Francisco Thereziano Fortes, esperando talvez minhas insignificantes letras pudessem influir nos ânimos de sua ingrata Mãe, e irmãos, a ver se lhe dava alguma quantia, ainda a título de esmola, eu lhas dei, concebidas nos melhores termos, e soube que foram entregues por pessoa capaz, e em mão própria; estas cartas produziram desagradáveis impressões, e não tiveram resultado algum. Depois pedindo - me também um abono, ou fiança, para tirar 8$000 réis à premio, declarou-me que havia uma pessoa, que lhe dava 10,ou 20$000réis, pela herança de sua Mãe, mas que, não aceitava essa pequena quantia, para que seus filhos à todo tempo não se queixassem que seu pai barateou, ou pôs fora á herança de sua Avó, que te deixou um tão avultado patrimônio.
Em o ano de 1858, vieram pregar Missões nesta Freguesia os frades Frei Eugênio Mª de Genova, e Frei Francisco de Carreglioni, este me escreveu com palavras de honra, que por suas práticas, e exortações, tinha conseguido da referida minha Tia Joaquina Felisberta da Silveira, reconhecer a seu Filho José Floriano dos Santos, fazê-lo co-participante com os mais herdeiros de sua grande fortuna, e que estando este negócio já em muito bom caminho, as imprudências do mesmo meu Primo José Floriano, e a dureza, crueldade de meu Primo Dr. Antônio Joaquim Fortes, tudo transtornaram, e perderam. O referido reverendo, e o juro aos Santos Evangelhos; e por me ser esta pedida, a passo de minha letra e firma.
Freguesia de S. José e Dores das Alfenas, 1º de Março de 1860.
(a) José Carlos Martins.

Em 25 de fevereiro de I860, foi pedida ao Juiz de Paz do Termo de Caldas, a inquirição de Joaquim José de Sant' Anna, de oitenta anos, natural de São João Del Rei, onde morou por muito tempo; respondeu que sabe, por conhecer a José Floriano, que este é filho de dona Joaquina Felisberta da Silveira, que, nesse tempo, era solteira; quanto ao pai desse José Floriano, só sabe dizer que foi criado; em casa de Jucá Leão, morador em São João Del Rei e que, mais tarde veio para Campanha.
Foi pedida, em 13 de fevereiro de 1860, ao doutor juiz Municipal de Órfãos e Ausentes, de Campanha a seguinte inquirição:
Dona Cândida Joaquina da Silveira, parda, maior de oitenta anos, natural de São João Del Rei, viúva, moradora em Campanha, onde vivia de suas costuras.
Disse ser prima-irmã do finado José Floriano dos Santos, por ser o pai dela testemunha irmão do dito Santo. Disse que sabe, por ouvir muitas vezes, de sua mãe dona Anna Joaquina da Silveira, que o finado José Floriano dos Santos era filho do capitão Francisco Dionysio Fortes e dona Joaquina Felisberta da Silveira, moça solteira que, nesse tempo, residia em casa de seus pais; e que o mesmo José Floriano , quando nasceu foi dado a criar, pelo próprio Francisco Dionysio Fortes a dona Ana na Antonia, por alcunha "Trepa Moleque", a qual não tendo leite, o levou à porta da casa de Juca Leão, onde foi criado.
Disse mais que sua mãe lhe contara que assistiu o nascimento de José Floriano; e que sempre certificou, ser filho do sobredito capitão Francisco Dionysio Fortes.
Que, muitas vezes, este procurou tirá-lo da casa de Juca Leão, e até por meios judiciais.
E que o menino não querendo ir para a sua companhia, chegou, em uma ocasião, a puxá-lo a força, por baixo do portão, a ponto de feri-lo nas costas.
Que sabe, perfeitamente, que o dito José Floriano é filho do capitão Francisco Dionysio, não só porque sua mãe era irmã gemiana do pai dela testemunha, como porque ouvira dizer muitas vezes, do mesmo Francisco Dionysio.
Disse mais que Francisco Dionísio teve outros filhos, com a tia dela testemunha. E esses foram criados, na fazenda de sua avó, dona Victória Bustamante e Sá, continuando a mãe de José Floriano sempre em companhia de Francisco Dionysio. E este, mudando-se para o Rio Preto, trouxe, consigo os seus filhos, com exceção de José Floriano que ficou em companhia de Juca Leão, em São João Del Rey.
E que depois de estar em Rio Preto, o capitão Francisco Dionysio Fortes mandou buscar Joaquina Felisberta da Silveira, mãe de seus filhos, vivendo sempre em sua companhia.
Em 21 de abril de 1860, foi, na cidade de Ouro Preto, tomadas por termos as declarações festas pelo preso Antônio José de Arantes Laje, a requerimento de José Bento de Sá Fortes e seus irmãos, ao douto juiz municipal daquela capital.
Respondeu que conheceu Francisco Dionysio Fortes e José Floriano dos Santos Fortes.
Perguntado si este era irmão do finado Francisco Thereziano Fortes, respondeu que os conheceu e os viu muitas vezes em conversação amigável: E que uma vez viu tratarem-se por irmãos.
Perguntado se ele depoente tinha alguma dependência de Carlos Theodoro de Souza Fortes e do doutor Antônio Joaquim Fortes, respondeu que são essas as pessoas que, de ha muito tempo, socorreram a ele depoente, desde que se acha preso, e que lhe serve como si fossem seus pais.
Á margem desse documento encontra-se a seguinte anotação:
"Réu condenado à morte e atualmente carrasco da cadeia de Ouro Preto" À folhas 148 do processo, traz o seguinte atestado, subscrito por todas as, autoridades judiciárias, administrativas, policiais e comerciais de Campanha: "Atestamos nós abaixo assinado, moradores nesta cidade que os Senhores Bernardo dos Santos Fortes, Antônio de Paula Fortes e José Bento de Sá Fortes, filhos legítimos do finado José Floriano dos Santos, são moços de boa educação, bem gerados, e que gozam da estima de seus parentes, amigos e compatriotas, não só pela sua honrada conduta, pública e particular como pelo respeitos carinho e amizade e dedicação com que tratam de sua mãe viúva e de suas irmãs solteiras que ficarão reduzidas á miséria com a morte de seu marido e pai e os julgamos incapazes de praticarem atos de salteadores; e o que juramos se necessário for.Em firmeza do que, afirmamos apresente.
Cidade da Campanha, 5 de março de 1860. (Seguem as assinaturas),

À folhas 150, consta um documento firmado por Antônio Máximo Ribeiro da Luz, bacharel formado em ciências jurídicas e sociais pela Academia de São Paulo, Juiz de Direito da Comarca de Baependi.
A folhas 150 consta um documento firmado por Antônio Máximo Ribeiro da Luz, bacharel formado em ciências jurídicas e sociais pela Academia de São Paulo, Juiz de Direito da Comarca de Baependi.
“Atesto que julgo os senhores José Bento de Sá Fortes e seus dois irmãos Antônio e Bernardo, incapazes de cometer delitos de natureza daqueles porque são acusados não só pelo conhecimento pessoal que dos mesmos tenho, como que pelo bom comportamento que sempre tiveram na cidade da Campanha. E por ser verdade e por me ser este pedido o passo. Cidade de Baependi, 12 de Julho de 1860: (a) Antônio Maximo Ribeiro da Luz
À folhas152 do processo, consta o seguinte documento:
"Tristão Antônio de Alvarenga, Desembargador do Maranhão, etc.
Atesto, que durante a minha residência na cidade de Campanha, na qualidade de Juiz de Direito, conheci dois moços chamados Bernardo, e José Bento, filhos legítimos do finado José Floriano dos Santos; principalmente um deles, que até foi mestre de primeiras letras de um neto meu por algum tempo; e nunca me constou fato algum praticado por eles, ou por qualquer outro irmão, que autorize as imputações que hoje sofrem o que tudo jurarei sendo necessário. Jardim, 13de maio de 1860.
( a) Tristão Antônio de Alvarenga.
À folhas 154, destaca-se o documento que se segue:
“O Cidadão Brasileiro Antônio Caetano Pereira, Presidente da Câmara Municipal, e ex - Coronel da Primeira Legião de Guardas Nacionais do Município desta cidade de Campanha.
Atesto e jurarei se necessário for, que o finado senhor Furriel José Floriano dos Santos Fortes, foi bom Cidadão, bom Esposo e bom Pai de Família, a qual deu educação compatível com as suas forças, deixando sua mulher e cinco, ou seis filhas moças solteiras e três filhos José Bento de Sá Fortes, Bernardo de Sá Fortes, Antônio de Pádua Fortes; que deu numerosas viagens ao Rio Preto, na pretensão de arrecadar uma herança, que me disse ser materna, mas que seus irmãos a isso se negavam e se opunham, tanto que na ultima viagem, faleceu no regresso daquele local para esta cidade.
Atesto que aqueles Filhos sempre obedientes a seus pais, tratando deles, mormente na Família, na falta do Pai, também sempre se conduzirão bem. E passo esta por me ser pedida aos 3 de março de 1860, nesta cidade de Campanha, Comarca do Rio Verde.
(a) Antônio Caetano Pereira.
Finalmente, a folhas, 155, consta atestado abaixo:
Antônio José de Mello Brant, cavalheiro da Ordem de São Bento de Aviz, Tenente Coronel reformado Cavalaria da primeira Linha do Exercito do Brasil, e subdelegado de Policia do Distrito da Cidade de Campanha,etc.
Atesto e faço certo que José Bento de Sá Fortes, Antônio de Pádua de Sá Fortes e Bernardo de Sá Fortes, filhos legítimos do falecido José Floriano dos Santos Fortes, de que receberam uma educação religiosa e civil, freqüentando com aproveitamento as aulas, que então existiam nesta cidade tanto que José Bento de Sá Fortes foi aqui professor de uma aula particular de primeiras letras, que era freqüentada por muitos alunos, assim como Bernardo de Sá Fortes ensinou particularmente gramática latina, procurando por estes meios socorrer sua boa mãe irmãs, família honrada por cujos princípios e comportamento destes três irmãos, não os acho capaz de cometer o atroz crime de que são acusados, mesmo porque tendo nesta cidade numerosos parentes são todos eles considerados Homens de probidade a que tudo juro debaixo do juramento do meu cargo.
Cidade da Campanha, 5 d.e março de 1860 (a) : Antônio José de Mello Brant,
Terminada a leitura destes documentos, o conselho de sentença," na sala especial passou a responder os quesitos formulados.
Vindo os autos ao juiz presidente do Tribunal, este exarou a seguinte sentença:
''Em conformidade das decisões do júri, absolvo os réus José Bento de Sá Fortes, Antônio de Pádua Fortes, 'Bernardo de Sá Fortes e José Antônio de Oliveira das acusações que lhe foram intentadas, mando que findo o prazo legal, lhe passe o competente alvará, a fim de serem soltos, se por lá estiverem presos e risque os seus nomes do rol dos culpados, pagas à custa pelo autor. Sala das sessões do júri 20 de julho de 1860, em continuação do dia antecedente.
(a) Ângelo da Mata e Andrade juiz de Direito, int°.
O comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes, o autor desse processo, por seu advogado, Manoel Antônio Fernandes, apelou da decisão do júri, para o egrégio tribunal da Relação do Distrito ([3]) na mesma data da sentença absolutória."
E os réus foram intimados da apelação na cadeia de Paraibuna, ([4]) para onde foram remetidos, em 24 de agosto de 1860, um mês e pouco depois do julgamento.
O advogado Carlos Arthur Brusk Varella que fez a acusação dos réus perante o júri da vila de Rio Preto, como procurador de Carlos Theodoro de Souza Fortes, ofereceu razões ao Tribunal da Apelação. O advogado Carlos Arthur Brusk Varella protestou, perante o Tribunal do Distrito, o comportamento ao juiz que presidiu o tribunal e que sancionou com a sua adesão e silencio a absolvição mais escandalosa que se tem notícia, como se exprimiu nos autos. Prometeu publicar um opúsculo dando conta Tribunal e á opinião publica de todas as torpezas que assinalaram esse julgamento.
Encontrou diversas nulidades no processo em numero de seis.
O doutor Ângelo da Matta e Andrade, o juiz que absolveu os réus, escreveu um artigo que publicado em jornal da Corte contra o Comendador Carlos Theodoro de Sousa Fortes a favor dos rapazes, causou larga repercussão no município de Rio Preto e vizinhos, cujo povo vinha acompanhando com interesse o andamento do rumoroso processo.
Ha referência a um processo que Carlos Theodoro de Souza Fortes intentou contra ' Antônio Fernandes da Silva, pelo crime de abuso de liberdade de imprensa, por ter publicado, e feito' distribuir por mais de quinze pessoas artigo em jornal contendo alusões injuriosas a Carlos Theodoro e que e que poderiam prejudicar a sua reputação.
E Antônio Fernandes foi condenado a quatro meses de prisão e multa correspondente a metade do tempo, (Grau médio do artigo 237 § 3ºc combinado com o artigo 236 §4°,do Código Criminal).

Esta sentença foi assinada pelo juiz municipal Manoel de Araújo da Cunha, em 5 de março de 1860.
Trata-se de um comunicado inserto no “Correio Mercantil", sob a epígrafe” Mistérios do Rio Preto".
Declarou Antônio Fernandes da Silva, em sua defesa, em forma de protesto a essa sentença que ele apenas assinou o comunicado. E que esse artigo fora feito pelo doutor Motta de Andrade que sabia escrever para a imprensa sem se comprometer, tendo parte em tudo isso o vigário Martimiano Teixeira Guedes José Vilela de Souza Meirelles e Manoel Pereira da Silva Júnior.
O doutor Ângelo da Motta e Andrade fizera ainda publicar no «Jornal do Comércio» de 17 e 22 de junho de 1860, e sob a sua responsabilidade um artigo com a epígrafe «Os acontecimentos do dia 18 de maio em Rio Preto» onde se encontram as seguintes frases injuriosas dirigidas ao comendador Carlos Theodoro: "caráter ignóbil”, "procedimento aviltante”, "energúmeno”,”feitos revoltantes", "amigo da conflagração e deserdem", “cheio de argúcia para o mal” e “desrespeitador e inimigo das leis e das autoridades constituídas" .
O Juiz Municipal da Vila do Rio Preto, doutor Manoel de Araújo da Cunha, em sentença de 10 de outubro de 1859, condenou ao réu doutor Ângelo da Mata e Andrade, em dois meses de prisão e na multa correspondente à metade do tempo.
Em 30 de Julho de 1860, os réus constituíram seus advogados na Corte, os doutores Lafaiete Rodrigues Pereira e Flavio Farnése, para oferecerem razões.
Consta das razões do doutor Flavio Farnése pontos interessantes como esse de dizer que o que descrevemos é um capricho de um orgulhoso potentado de aldeia. Por maior que seja o seu orgulho interessado na questão, por mais largos que sejam os meios pecuniários de que dispõe, por maiores que fossem as dedicações de seus advogados, que foram numerosos e apesar de todo o favor, indulgência e docilidade que ordinariamente se encontra num homem dinheiroso, não foi possível ao apelante provar nos enormes autos, que sofreu a violência que se diz vítima.
Os apelados durante formação da culpa estiveram incomunicáveis.
Promessas, seduções, perfídia, a tudo recorreram apelante e seus asseclas para arrancar aos infelizes uma confissão que os comprometesse.
E que o advogado do apelante teve o seu orgulho ofendido também, vaidade mesmo, empregando todo o seu talento para obter a condenação os réus.
Saiu da Corte, suportou o sol, a chuva, todos os incômodos que sofre quem viaja pelo nosso interior, para tomar a si a causa de um opulento fazendeiro, exibindo perante um dia de província toda a sua eloqüência, toda sua dialetria, todos os belos dotes de um advogado e sofrer depois a decepção de ver perdida a causa que defendia, e muito!
O espetáculo que o patrono do apelante presenciou na Vila do Rio Preto, devia enchê-lo de prazer e de consolação.
Apesar de quase geral corrupção e de profunda indiferença com que se olha para a virtude e para o vicio, esses moços, pobres e desvalidos encontraram corações generosos que se interessaram pela sua sorte, que, deles se compadeceram e que não duvidaram em patrociná-los, embora incorressem nas iras de seu poderoso perseguidor.
Que se especule com quem, como o apelante, tem grande fortuna, com quem possa pagar a especulação, se compreende. Mas, com uns pobres, privados daquilo mesmo que por direito lhes pertence, com uns pobres aquém se atira o labéu de salteadores, é o que ninguém poda acreditar.

CAPÍTULO XVIII
NOVOS ASPECTOS DA CAUSA
Vamos aqui historiar os diversos cursos tomados pelo processo que apaixonou muito á opinião pública riopretana. E eles alem de serem interessantes que os acontecimentos do dia 9 de novembro de 1859, na Água Fria, tiveram eco não só no tribunal local, como nas instâncias superiores.
Em acordam de 18 de dezembro de 1880 o Tribunal da Relação julgou improcedente a apelação interposta, por se acharem os autos revestidos de toda a fórmula substanciais e do processo e condenaram ao apelante ás custas.
No mesmo dia, mês e ano, na Corte, o Dr. Carlos Arthur Brusk Varela, procurador do apelante, interpôs o Recurso de Revista para o Supremo Tribunal de Justiça do acordam proferido contra o seu constituinte. E a 21 de fevereiro de 1861, o mesmo advogado, no Supremo Tribunal ofereceu as razões. E a 9 de 1861, o advogado Farnese, juntou também suas razões.

OITO ANOS DEPOIS.
Há no processo um estacionamento de oito anos, sem que as partes tomassem interesse pela causa.
E Bernardo de Sá Fortes que se achava preso na cadeia de Turvo, pediu preparo do processo para ser julgado na sessão do júri, convocada para o dia 23 de agosto de 1869. Por motivos que do processo não consta, essa sessão não se realizou, sendo instalada a seguinte, a 11 de Setembro do mesmo ano de 1869.
Foi advogado José Antônio de Souza Lima constituído pelo comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes em 8 de outubro de 1869 para produzir a acusação do réu Bernardo.
O doutor Bento de Azevedo Maia Rubião médico residente em Conservatória, atestou, em 5 de outubro de 1869, que o comendador se achava com erisipela, não podendo comparecer ao julgamento.
Antônio de Pádua Fortes, em petição dirigida ao Juiz de Direito da Comarca de Paraibuna, feita em Turvo, onde se achava preso, pediu, em 13 de outubro, desistência do tríduo, isto é, do prazo para contrariedade do libelo, pedindo, ainda, entrar em julgamento, sendo deferido o seu requerimento.
E nesse mesmo dia, 13 de outubro de 1869, sob a presença do Juiz de Direito da Comarca de Paraibuna, doutor Francisco de Paula Preste Pimentel, foi instalada a sessão do Tribunal do Júri.
Foram interrogados os réus que se achavam presos na cadeia do Turvo, Bernardo de Sá Fortes e Antônio de Pádua Fortes, cada um por sua vez.
Bernardo respondeu que contava trinta e seis anos de idade. Num longo interrogatório, reviveu Bernardo os acontecimentos da casa de doutor Manico, terminando em afirmar que houve acordo entre Carlos Theodoro e o irmão dele interrogado José Bento, no intuito deles serem reembolsados da herança que eles e seus irmãos tinham direito. O próprio Carlos Theodoro dissera que eles tinham direito a essa herança e então dariam a seus irmãos as letras e ordem de que trata o processo.Efetivamente o comendador, em lugar determinado, em dia marcado, deu-lhes as letras, mas, depois levado pelo desejo de creditar a perda a ele, depoente, e seus irmãos, veio dizer que as letras foram extorquidas.
Respondeu que tanto antes como depois do que pomos em evidência esse desejo foi externado: em época que já vai longe, prendendo o pai dele depoente e dando-lhe pancadas; e, nesta, por meio de compra de testemunhas que nesse processo vieram depor.
Afirmou ainda que se levou os títulos cheios, pena e tinta, á casa do doutor Manico, foi mediante previa combinação com Carlos Theodoro, a fim de evitar que seus parentes tivessem conhecimento desse fato.
Veio, depois, para prestar declarações o outro irmão, Antônio de Pádua. Contava, então, trinta e cinco para trinta e seis anos.
O seu depoimento foi longo, com a mesma descrição do de seu irmão e terminou dizendo que a sua ultima morada foi em Baependi, onde era professor durante cinco anos e meio.
Afirmou que quem proibiu ao comendador de dar o que lhe pertencia foi a sua mulher porque não os admitia como parentes.
O comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes, disse, em requerimento, que precisava se justificar sobre as acusações que lhes faziam Bernardo e Antônio de Pádua. E o requereu ao doutor Juiz Municipal de Juiz de Fora.
Dessa justificação sobressalta o seguinte: Na vinda dos réus para a cadeia da cidade do Turvo, dormindo eles na fazenda do Claro distrito de São Francisco, termo de Juiz de Fora, a tarde desse dia, o réu José Bento disse ao comendador José Anastácio da Costa Lima, em presença de Francisco Antônio Duarte e dos mais réus que havia com seus irmãos praticado; o crime de forçar ao comendador em assinar letras e ordem; fora isso por insinuações de amigos, dizendo que eles tinham direito a essa quantia, na qualidade de filhos do finado José Floriano e que só por meio deste modo de proceder poderiam obter qualquer quantia do justificante.
De um dos documentos junto aos autos se percebe que Carlos Theodoro de Souza Fortes, era comendador, da Ordem da Rosa, concessão feita por Sua Majestade Imperial.
O comendador constituiu seus procuradores na cidade de Juiz de Fora, o seu sobrinho Francisco Dionísio Fortes Bustamante e o doutor José Moreira da Rocha, para justificarem qualquer deles o seu direito nesse juízo.
O comendador José Anastácio da Costa Lima, foi o primeiro a depor nessa justificação.
Disse ter cinqüenta e dois anos de idade, casado, fazendeiro, natural do termo de Barbacena e morador no termo de Juiz de Fora.
Respondeu que José Bento e seus irmãos eram nessa época conhecidos por Fortes Fracos que vindo eles da cadeia de Rio Preto para a de Juiz, de Fora, acompanhados de muito outros presos e da escolta que os conduzia, dissera José Bento à testemunha, que lhe perguntara por que havia praticado o crime que lhes imputavam que muitas vezes isso acontecia, por conselho de amigos, em vista do que a testemunha não quis prosseguir em mais indagações.
A outra testemunha foi Francisco Antônio Duarte da Silveira, com cinqüenta e seis anos, solteiro, lavrador, natural de Ouro Preto, e morador na Vila do Rio Preto. Disse que ouviu José Bento dizer ao comendador José Antônio que por conselhos de seus amigos foi levado a praticar o crime que lhes é imputado, visto que, de outra sorte, não poderia haver quantia alguma, a título de herança de seu pai José Floriano, que dizia ser irmão natural da mulher do justificante e do finado comendador Francisco Teresiano Fortes, de quem o pai dos justificados nunca pode haver coisa alguma a pesar de reiterados esforços.
O Juiz Presidente do Tribunal mandou ao oficial de justiça que recolhesse à prisão a testemunha do autor, Joaquim José da Silva Lima, e determinou ao escrivão que tirasse cópia de seu depoimento e a remetesse ao doutor Juiz Municipal, a cuja disposição, pois incontinente o preso, para que procedesse criminalmente contra o mesmo, na forma da lei, por estar perjurando a referida testemunha.
A testemunha Joaquim José de Souza, Lima, natural do Bom Jardim, com cinqüenta e três para cinqüenta e quatro anos, mais ou menos, sapateiro, casado e morador no Bom Jardim, disse tudo quanto consta de seu depoimento e que, depois de ter jurado neste processo, sobre o qual ninguém com ele entendera na ocasião, sendo pobre necessitado, escrevera uma carta ao comendador Carlos Theodoro, pedindo-lhe, por empréstimo, a quantia de cinqüenta mil réis, que este lhe recusou o empréstimo, alegando falta de colheita de café.
Tendo essa carta em seu poder, ha poucos dias, e passando por sua casa o senhor Meirelles disse que ele, testemunha, havia jurado por dinheiro e para lhe justificar, procurou a carta já aludida, este senhor pediu-a e a guardou para si.
Antônio Cleto depôs o mesmo que disse durante a formação de culpa. Afirmou que a casa do doutor Manico tinha uma varanda aberta nos fundos, estando as portas e janelas de frente fechadas, podendo os rapazes ali esconderem da chuva.
A casa, na ocasião do fato que descrevemos achava-se abandonada ha nove há anos. Dista da estrada umas trezentas braças, estando dentro dos pastos da fazenda de São Fernando.
Tomaram assento na tribuna de defesa os advogados doutor José Caetano de Moraes e Castro e doutor Joaquim Feijó de Albuquerque Lins.
Em seguida, foram inquiridas as testemunhas de defesa.
A primeira a depor foi Luiz Antônio de Oliveira Santos, natural do Presídio de São João Batista, termo da cidade de Ubá, de presente morador em Turvo, casado, negociante. Disse que depois de terem os réus presentes sido absolvidos pelo Júri do Rio Preto e ter sido confirmada a sentença da absolvição pelo Tribunal da Relação, estiveram eles, alguns dias, em liberdade e vieram passear em casa dele testemunha, em companhia de Manoel Rodrigues Valente; convidou-os ele testemunha para ir passear em Bom Jardim.
La chegando, foram se hospedar em casa de Bernardina, onde o acusado Bernardo interrogou a Valente em que lugar morava um tal Monga, cujo verdadeiro nome era José Joaquim da Silva Lima, que tinha jurado contra eles. Diante dessa pergunta respondeu-lhe que a casa em que estavam era da mulher do tal Monga; e que ele ali também morava.
Bernardina Maria da Silva que ouvia toda a conversa e ao dirigir para o interior da casa voltou e lhes perguntou o que estavam conversando. E não querendo nenhum deles responder, ela repetiu tudo quanto eles disseram e afirmou que tudo aquilo era exato e que muito tinha ralhado com o safado de seu marido, que, em troca de depoimento falso, recebera cem mil reis, os quais de nada lhes serviram.
Ao se levantarem da mesa, ele testemunha e os rapazes seus companheiros, apareceu Monga e ao qual se dirigiu Bernardo nestes termos:
— Venha cá, seu safado, aqui estão os moços contra quem você foi jurar. Os cem mil reis já se acabaram e eles ai estão na rua.
Noutra ocasião, passando ele testemunha de novo, em casa de Bernardina, hospedou-se também lá, o doutor Gabriel Ploisquelec Fortes Bustamante o qual, no dia seguinte, pela manhã, depois de pagar à mesma Bernardina a despesa de hospedagem, dobrou um maço de notas e lhe deu, dizendo-lhe que era para ser entregue a Joaquim.
E perguntando Bernardina ao doutor Gabriel de que provinha aquele dinheiro, disse ele com ares de galhofa que era de ter o Joaquim curtido umas rédeas. Retorquiu Bernardina afirmando que eles andavam com histórias; retirando-se, depois disso, o doutor Gabrielsinho
Soube também que, durante todo o dia, Bernardina e Monga estiveram brigando; este querendo receber o dinheiro deixado pelo doutor Gabrielsinho e aquela dizendo que não o entregava porque era mal ganho.
Há cerca de dois meses, indo ele testemunha para o Rio de Janeiro, no Bom Jardim, foi ter com Monga, e este, entrando em conversa com ele, disse ser uma grande maçada servir de testemunha para gente rica, sendo tão esfregado sem proveito. Que esses homens ricos eram o diabo. Tendo os Fortes lhe prometido dinheiro, agora recusavam de lhe dar.
Depois de ter escrito duas cartas ao senhor Carlos Theodoro de Souza Fortes, só a ultima que teve resposta. Essa carta foi mostrada por Monga ao depoente. Declarou que a falta de café tinha feito desaparecer o dinheiro, o pelo que, ele Carlos Theodoro, não podia remeter o dinheiro que Joaquim lhe pediu.
Avisava-lhe nesta carta que não andasse contando coisas a uns e á outros, porque ele Carlos Theodoro era inimigo de barulho, e que se os moços fossem condenados lhe daria uma boa gratificação. (º)
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(º) - Às folhas 295, consta a carta dirigida a Joaquim José de Sousa Lima, nos seguintes termos:
Ilmo. Sr. Joaquim José de Souza Lima.
Santa Clara, 20 de Abril de 1864.
Amigo Senhor
Tenho presente a sua estimada de 19 do correspondente, na qual pede resposta da sua carta, que me dirigiu e na qual me pedia 50$OOO. A isso respondo. Sinto infinito não o poder servir nesta ocasião, pois o senhor sabe muito bem que a falta do café que tem havido estes 4 anos, tem feito desaparecer o dinheiro em todas as partes, por isso sinto profundamente não o servir neste pedido, enquanto ao mesmo que me diz eu desejarei que o Sr não faça por ai alarde, e nem mesmo que em nosso nome, pois, somos inimigos de barulhos.
Agradeço ao Senhor as suas amáveis expressões.
Saúdo com estima a sua pessoa e a sua família, pois sou seu amigo. Obrigado.
Carlos Theodoro de Sá Fortes.
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No tempo em que os réus presentes estavam assistindo a formação de culpa, foi, ele, testemunha, em companhia de seu sogro, da casa desta para o Mata Cachorro, encontrando-se, no caminho, com Dezidero, que ia servir de testemunha, disse este, em conversa como sogro dele, testemunha, que lhe aconselhava não fosse jurar falso, ao que retrucou Dezidero afirmando que não fazia mal, pois os Fortes eram ricos e os moços sendo muito pobres não podiam se ombrear com eles; ao passo que a ocasião era muito boa para se ganhar dinheiro só por dizer meia dúzia de palavras.
E que depois Dezidero se apresentou com muito dinheiro, tendo sido antes tão pobre, não podendo dispor nem de dez mil reis.
Em uma ocasião, conversando, em casa dele testemunha, com Joaquim da Fonseca Moura, disse este que Carlos Theodoro tinha lhe pedido para falar, a ele testemunha, a fim de jurar no processo dos réus que ali se achavam para ser julgados, e também ao finado Manoel Pereira, mas que ele Moura nada lhes quis dizer.
Perguntado se freqüenta a casa de Monga e Bernardina, respondeu ele, testemunha, que por ser hospedaria a casa de Bernardina, a freqüentava a vontade e que Monga que é casado com Bernardina acha-se separado dela.
Houve replica e tréplica, esta pelos doutores Graciliano Aristides do Prado Pimentel e José Costa Machado de Souza, advogado autor.
A testemunha Joaquim da Fonseca Moura no processo de Manoel Joaquim Pereira Júnior, depôs que Carlos Theodoro desejava envolver Pereira e Meireles, nesse negócio de letras.
Convidado por Carlos Theodoro a fazer depoimento falso a isso se negou, fazendo, desde então, mau juízo de Carlos Theodoro.
Francisco de Paula Dias Moreira, administrador da fazenda de São Luiz, da marquesa de Valença, no processo de Pereira, disse que tendo ido um meirinho á fazenda de Santa Clara, sobre questão de José Floriano, ficou em casa almoçando, e o escravo Porfírio foi esperá-lo com mais dois outros companheiros, num lugar onde existia uma pedra, ao pé do rio, em pasto da fazenda de São Fernando.
E quando aí passou o meirinho, o espancaram, deixando em lençóis de vinho, conforme a expressão de Porfírio.
Indo a fazenda o mesmo José Floriano conversar com o comendador Teresiano, Porfírio instou para que ele se retirasse e como não o quisesse, deu-lhe pancadas, e o levou para o lugar da prisão da fazenda, ensangüentado e enlameado, onde esteve seis ou sete dias, sem querer comer, não obstante ir ao cárcere, continuamente, uma bandeja bem arranjada, até que foi da Vila uma autoridade e José Floriano passou um termo.
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Respondidos os quesitos pelo Conselho de Sentença, o Juiz Presidente, em despacho nos autos, datado de 14 de outubro de 1869, absolveu os acusados da ação que lhes foi intentada.
Os advogados do autor apelaram da sentença absolutória para o Tribunal da Relação do Distrito, nesse mesmo dia.
Pediram em requerimento o prazo de sessenta dias para que o escrivão pudesse fazer o traslado, o que foi concedido. No traslado foram oferecidas razões.
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O Delegado de Policia de Juiz de Fora, em dez de novembro de 1892, encaminhou ao Juiz Municipal do Rio Preto, o preso José Antônio de Oliveira que se achava na cadeia daquela cidade, acompanhá-lo por quatro guardas nacionais, comandados pelo cabo dessa milícia Miguel Antônio Gonçalves.
Aos 13 do mesmo mês deu entrada na cadeia de Rio Preto.
Em 28 de março de 187o, o comendador constituiu seu procurador para representá-lo na acusação do réu José Antônio de Oliveira, o doutor José Antônio de Souza Lima, alegando enfermidade. O atestado médico foi passado em 31 desse mesmo mês, pelo doutor Afonso Antônio Portugal, na Fazenda Santa Clara.
A 4 de abril de 1373 se instalou o júri em Rio Preto para julgar José Antônio de Oliveira, sob a presidência do Juiz de Direito da Comarca doutor Manoel Vieira Fortes,
Foi interrogado José Antônio de Oliveira que disse ter quarenta e quatro anos, e que as testemunhas que depuseram no processo umas eram da casa do queixoso e outras foram peitadas por ele; diz isso por ouvir de muitas pessoas que o afirmam; que ele interrogado é inocente do fato argüido.
Perguntado por que motivo dissera perante o delegado de Polícia que tivera participação no crime, cujas circunstâncias narrava minuciosamente, como consta nos autos, respondeu que nunca dissera tal Coisa e que o Delegado mandava escrever causa diferente das suas respostas.
Perguntado como respondia por esta maneira, quando, no seu interrogatório, perante o primeiro juiz, não negava ter afirmado a sua participação no crime, respondeu que fora levado a fazer essas declarações por promessas do Delegado, e o que dissera no seu interrogatório perante o Delegado lhe fora insinuado por este, dizendo-lhe se ele confessasse ter sido capanga dos outros réus, ele interrogado, seria salvo e que o queixoso lhe daria uma gratificação, ao que ele acusado acedera, tais as insinuações daquela autoridade e também com a esperança de lucro e para ver se conseguia a sua liberdade.
Mas teve desilusão muito depressa, porque o Delegado, tendo descido a prisão, respondeu-lhe que o soltaria só por ocasião do júri.
A acusação foi feita pelo Dr. Souza Lima e a defesa pelo Dr. Antônio Ribeiro da Silva Porto.
Houve replica e tréplica.
Diante e certidão pedida por seu advogado se prova que José Antônio de Oliveira é casado em São Carlos do Pinhal, em São Paulo onde tem mulher e algumas filhas, das quais duas em ponto de casar.
E que, durante o tempo em que morou naquela cidade, sempre se conduzia como um bom cidadão e bom pai de família.
Foi absolvido em vista de respostas dadas aos quesitos por sentença do Juiz Presidente do Tribunal, sendo soltos no mesmo dia.
EPÍLOGO
Postos em liberdade os filhos do infeliz furriel do Corpo Policiai da Província, que se chamava José Floriano dos Santos Fortes, empregaram as suas atividades em trabalho honesto.
E uma interrogação perdura sobre os fatos que acabamos de ler, os quais têm sua incógnita nos acontecimentos havidos em casa do doutor Manico, na Água Fria.
Não houve, no processo crime, prova que condenasse os três irmãos pelo crime de roubo, sendo, em diversos julgamentos, absolvidos.
E também não temos coragem de dizer que o comendador Carlos Theodoro de Souza Fortes que veio a ser, mais tarde, o barão de Santa Clara, tivesse assinado os papéis e depois se arrependesse.
Só mesmo aquela pedra hirta, de forma retangular, parecendo fechar o caminho, fincada a beira do rio Preto divisor, nos poderia revelar o que aconteceu na tarde de 9 de novembro de 1859, em casa do médico doutor Manico.
E a opinião pública tão sábia, soube bem batizar aquela pedra que se percebe entre as estações de Coronel Cardoso e Santa Clara, num dos torcicolos do rio — com o nome de Testemunha Muda.
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Rio Preto










Vestígios de trabalho escravo.
Fazenda de Santa Clara nos dias atuais. Visão Lateral.
Fazenda pertencente, na época desses acontecimentos, a Família dos Fortes Fortes. Comendador Francisco Teresiano Fortes.


































[1] O tratamento que se dá ao distrito do Boqueirão é bem antigo. Antes mesmo de ter o nome de distrito de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão e depois Boqueirão do Rio Preto, já era conhecido por Mata Cachorro. O fato que narramos se deu em 1859 e o distrito foi criado posteriormente com a denominação de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão, em 1872.
[2] José Felipe dos Santos era advogado provisionado, recebendo, mais tarde,em 1871, na Faculdade de Direito de São Paulo, o grau de bacharel em direito.
[3] Tribunal da Relação do Distrito
[4] Juiz de Fora

Um comentário:

Unknown disse...

Belo texto Fatima,fiquei encantado com a quantidade e riqueza de detalhe minuciosamente descrito em conto estou maravilhado!!!
Obrigado por compartilhar tāo belo relato!